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Por que não usar óleo de coco como protetor solar

Por: Trópica Botânica em 2 de janeiro de 2017

É recorrente que na Trópica a gente receba diversos pedidos de indicação de protetor solar natural, e é claro que  com a chegada do verão esse tipo de questão fica ainda mais latente. Muitas vezes essas dúvidas surgem em um formato já direcionado: qual óleo vegetal vocês indicam como filtro solar?
Nossa resposta pode soar um tanto desanimadora, mas é a mais científica que poderíamos dar: nenhum.

Pela internet vemos informações variadas sobre a utilização de óleos e manteigas vegetais para este fim, por vezes com seus supostos FPS, sendo os óleos mais comuns os de coco, karitê, café verde, e recentemente nos blogs americanos e europeus o de framboesa.
Orientações como essas são tentadoras por sua praticidade e eficácia, afinal qual entusiasta da cosmética natural e faça-você-mesma não gostaria de se ver protegida do sol apenas com ingredientes naturais e fáceis de encontrar? O problema é que essas afirmações dificilmente estão embasadas por evidências que comprovem o que está sendo dito, e criam uma falsa sensação de segurança muito perigosa, pois pessoas se sentem protegidas com óleos vegetais e acabam se expondo ao sol por tempo demais e sem a devida precaução.

Um protetor solar deve oferecer bloqueio considerável dentro de todo o espectro de raios UV, uma faixa da luz que vai dos 290 a 400 nm e engloba tanto raios UVA, aqueles que penetram as camadas profundas da pele, quanto raios UVB, de atuação mais superficial. Este é um requisito muitas vezes difícil de cumprir mesmo em protetores químicos convencionais, sendo o FPS anunciado na embalagem o de proteção UVB, com poucas menções ao UVA. A legislação brasileira exige uma proteção UVA de no mínimo 1/3 da proteção UVB, mas lembramos que mesmo um FPS 50 não significa proteção total contra os raios.

Seria então possível cumprir estes requisitos de proteção com um óleo vegetal?
A resposta é não. Alguns filtros solares englobam óleos vegetais como aditivos a suas formulações, em conjunto a outros filtros, mas a utilização destes ingredientes sozinhos para proteção solar não é segura e vamos te mostrar os motivos.

(Tem dúvidas sobre o uso de óxido de zinco para formular protetores em casa? Nós também já discutimos por que isso pode não ser seguro.)

1) Óleos vegetais apresentam FPS muito baixo ou praticamente nulo

 

Com base neste estudo [1] citado pela Formula Botanica [2], vemos que, primeiramente, óleos vegetais possuem um FPS baixíssimo, que pode ser desconsiderado quando falamos de proteção solar eficaz: os valores para a absorção UV dos óleos de canola, coco, oliva e soja foram irrisórios, próximos de FPS 1.

Os resultados são corroborados por este outro estudo [3] de pesquisadores indianos, que testou somente a absorção para o UVB, e mostra um FPS de no máximo 7-7,5 para amostras de óleo de coco e oliva, e menor ainda para outros óleos. Neste artigo [4] há outra avaliação da absorção UV de alguns óleos vegetais, dessa vez sem correspondência com FPS, que também mostra resultados insuficientes: mais uma vez, o óleo de coco teve absorção praticamente nula, enquanto outros óleos como neem e ricino absorveram até 25-40% dos raios UVB, o que ainda são valores bem baixos considerando que um FPS recomendado de 15 equivale a absorção de 93% dos raios.

Tratando de óleos brasileiros, esta pesquisa [5] concluiu que emulsões com óleo de andiroba também não tem ação fotoprotetora, inclusive em testes in vivo. Este outro [6] traz análises in vitro para emulsões com 10% de diversos óleos da nossa flora nativa, como açaí, buriti, andiroba, tucumã e castanha, e também chegou a resultados baixíssimos (FPS 1), elucidando seu fraco poder em efetivamente absorver raios UV.

Isto nos mostra óleos vegetais com um fator baixo e limitado de proteção, que inclusive pode variar entre as amostras de acordo com a qualidade do ingrediente e a própria metodologia dos testes. Como garantir que o FPS do seu óleo de coco é 8 e não 0? Estas características, assim como outras na composição destas matérias-primas, vão variar de acordo com lote, origem, cultivo e colheita, método de extração/refino, tempo e forma de armazenagem.

2) Óleos vegetais não protegem em todo o espectro UV

 

Mesmo quando óleos vegetais apresentam algum tipo de proteção, ainda que baixa, ela raramente poderá ser aplicada a todo o espectro UV. Nos estudos acima, vimos que o coco não foi eficaz em nenhuma faixa do espectro, e no outro só houve o teste para UVB chegando a um valor pequeno.

O óleo de café verde é um dos mais citados como protetor solar, mas sua proteção é limitada à faixa do UVB [7]. Além disso, este estudo brasileiro [8] mostra para este óleo resultados de no máximo FPS 4,1 com grande variação entre as amostras e médias bem abaixo deste valor. No caso da espécie Coffea arabica, de onde é extraído a maioria dos óleos de café comercializados, o valor médio obtido foi 1,5, com variações entre 1,24 e 1,78.
É possível ver formulações caseiras e artesanais que alegam FPS por conter óleo de café verde, mas não há nenhuma comprovação deste efeito: se o ingrediente puro tem FPS teórico médio de 1,5, que efeito ele terá diluído em pequenas concentrações num creme ou bálsamo?

Café verde, antes da secagem. Imagem: Cristina Bruseghini/Flickr

 

3) Óleos vegetais sofrem degradação com a radiação solar

 

Óleos vegetais tem sua estabilidade prejudicada quando expostos diretamente à radiação solar, podendo sofrer degradação e liberar radicais livres, e há mais detalhes sobre este mecanismo aqui. [9] Em vez de proteger, eles estariam dessa forma contribuindo para causar danos oxidativos nas células da pele, aumentando os riscos de câncer e podendo gerar sensibilidade cutânea. Em muitos casos aqui no Brasil, eles também podem estar adulterados e já oxidados, com odor rançoso, aumentando ainda mais os problemas quando utilizados em direta exposição ao sol.

O fato de alguns óleos serem ricos em antioxidantes não significa que não sofrerão degradação, muito menos que são capazes de agir na prevenção a longo termo de problemas causados pela exposição prolongada ao sol. Óleos concentrados nestes compostos podem ajudar a minimizar danos oxidativos e impulsionar o FPS de filtros químicos e minerais, mas isto não faz deles protetores solares, já que neutralização de radicais livres (atividade antioxidante) não é a mesma coisa que absorção de raios UV.

4) Formulações com óleos vegetais não são submetidas a testes para avaliar seu FPS final

 

A determinação do FPS de um produto não é uma tarefa simples e requer constantes testes para garantir que o valor seja estável e corresponda ao desejado. Muitos dos resultados que vimos para óleos vegetais foram obtidos através da metolodogia espectrofotométrica de Mansur [10], o que significa que são um valor teórico e aproximado calculado a partir da absorbância destes ingredientes em vários comprimentos de onda do UV.
Porém, é necessário comparar os resultados in vitro com aqueles obtidos a partir de testes em humanos com diferentes tons de pele para saber se o produto realmente atua como esperado. É preciso compreender as interações físico-químicas entre os ingredientes da fórmula e destes com a radiação solar. Se são escassas pesquisas que avaliam in vitro o FPS de óleos vegetais, o que podemos dizer de testes em humanos? Provavelmente nenhuma amostra de óleo comercializada no Brasil passou por uma análise comprobatória deste tipo, tornando vazias quaisquer afirmações sobre o valor real (e não teórico) de seu FPS.

Conclusão: óleos vegetais não são seguros para uso como protetor solar.

Seu potencial protetor raramente foi medido na pele, e os valores teóricos existentes mostram FPS muito baixo que não atende a todo o espectro UV. Afirmações de FPS sem testes que as comprovem são insignificantes.

Mesmo assim, são ingredientes excelentes para hidratar, proteger e suplementar a pele, servindo como grandes aliados no cuidado diário e pós-sol. 

Óleos vegetais são capazes de formar uma película emoliente sobre a pele, que auxiliará a reter a umidade e prevenir o ressecamento ambiental causado por calor e vento excessivo. Além disto, fornecem ácidos graxos necessários para recomposição da barreira lipídica da pele e, em alguns casos, antioxidantes que minimizam os danos de radicais livres responsáveis pelo envelhecimento precoce. Por isto, abuse destes ingredientes e produtos à base de óleos em seu cuidado diário, aplicando-os em massagens suavizantes nas áreas que necessitam de hidratação, nutrição e regeneração.

No calor, escolha óleos facilmente absorvidos e indicados para todas as peles, como o coco ou a semente de uva, e combine-os a óleos ricos em antioxidantes naturais, como o buriti e sua altíssima concentração em carotenóides. Manteigas gentis como o cacau e o karitê também são ótimas para peles sensíveis e extremamente ressecadas.
Não se esqueça: prefira óleos e manteigas prensados a frio, orgânicos e de ótima procedência.

 


1 – Gause, S. Chauhan, A. UV-blocking potential of oils and juices, University of Florida, 2016, em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26610885

2 – Formula Botanica. Why you should NOT use coconut oil as a sunscreen, em: https://formulabotanica.com/not-use-coconut-oil-sunscreen/

3 – Chanchal Deep Kaur, Swarnlata Saraf. In vitro sun protection factor determination of herbal oils used in cosmetics, 2010, em: http://www.phcogres.com/article.asp?issn=0974-8490;year=2010;volume=2;issue=1;spage=22;epage=25;aulast=Kaur

4 – K. Anil Kumar and K. Viswanathan, “Study of UV Transmission through a Few Edible Oils and Chicken Oil,” Journal of Spectroscopy, vol. 2013, Article ID 540417, 5 pages, 2013, em: https://www.hindawi.com/journals/jspec/2013/540417/cta/

5 – FERRARI, Márcio; OLIVEIRA, Maria S. C.; NAKANO, Adelino K.  and  ROCHA-FILHO, Pedro A. Determinação do fator de proteção solar (FPS) in vitro e in vivo de emulsões com óleo de andiroba (Carapa guianensis). Rev. bras. farmacogn. [online]. 2007, vol.17, n.4 [cited  2017-01-10], pp.626-630. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-695X2007000400023

6 – Hudson Caetano Polonini et al. “Óleos da flora nativa da Amazônia: atividade fotoprotetora in vitro e composição principal de ácidos graxos”, Rev. Bras. Farm. 93 (1): 102-108, 2012, em: http://rbfarma.org.br/files/rbf-2012-93-1-16.pdf

7 – Jean F. Grollier, Sophie Plessis. Use of coffee bean oil as a sunfilter, L’oreal, 1988, em: https://www.google.ch/patents/US4793990

8 – Wagemaker, T. A. L. et al. Sun protection factor, content and composition of lipid fraction of green coffee beans, em: http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0926669010002712

9 – Eunok Choe e David B. Min. Mechanisms and Factors for Edible Oil Oxidation”, Comprehensive Reviews in Food Science and Food SafetyVolume 5, Issue 4, Version of Record online: 29 SEP 2006, em: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1541-4337.2006.00009.x/pdf

10 – Mansur JS, Breder MNR, Mansur MCA, Azulay RD. Determinação Do Fator De Proteção Solar Por Espectrofotometria. An Bras Dermatol Rio De Janeiro. 1986;61:121–4.


Imagem de capa: Reinhard Roscar

3 comentários em “Por que não usar óleo de coco como protetor solar

  1. Qual seria o protetor solar indicado por vocês?

    1. Oi, Jorge! Recomendamos protetores solares minerais com base natural e orgânica, que usam óxido de zinco/dióxido de titânio como ativo. Infelizmente no Brasil ainda não é de nosso conhecimento nenhuma formulação que se enquadra nestes quesitos, mesmo que em outros países já tenham se tornado padrão. Os que algumas pessoas tem recomendado são o da Adcos, que é mineral, e o Mustela, que tem formulação um pouco menos comprometida por ingredientes prejudiciais. Nos EUA tem o Badger que é bastante recomendado e difundido. Lembramos da importância de não comprar ou fazer protetores solares artesanais com óxido de zinco pois a comprovação do FPS requer vários testes in vitro e em humanos.

  2. […] Já falamos aqui sobre o uso de óleos e manteigas vegetais como protetor solar e mostramos que seus valores de FPS são muito baixos e variáveis, além de não existirem análises suficientes que comprovem sua atuação para este fim. Agora vamos nos deter sobre formulações caseiras com óxido de zinco. Analisando formulações naturais como a da Badger pode parecer relativamente fácil alcançar o mesmo resultado por meios artesanais – algumas tem somente ingredientes como óxido de zinco (ZnO) + óleos, manteigas e ceras vegetais. A maior parte das receitas caseiras segue esse padrão e podem incluir até uma correlação entre quantidade de óxido de zinco e FPS. Elas parecem práticas, convenientes e eficazes, afinal óxido de zinco e dióxido de titânio são minerais bloqueadores da radiação UVA e UVB e são relativamente fáceis de encontrar no mercado. […]

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