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Os problemas do protetor artesanal com óxido de zinco

Por: Trópica Botânica em 9 de janeiro de 2017

A cosmética artesanal trouxe a incrível oportunidade de produzir sabões, hidratantes e máscaras com ingredientes simples, eficientes, sem contaminantes tóxicos e sem depender de grandes indústrias cosméticas. No caso dos protetores solares não é diferente, já que há muitos riscos associados aos filtros químicos convencionais, e precisamos pensar em alternativas mais seguras. [1]

Muitas pessoas optam por fazem cosméticos artesanalmente para uso pessoal, e sempre há a dúvida: posso fazer meu protetor solar em casa? Nossa resposta é: melhor não. 

Já falamos aqui sobre o uso de óleos e manteigas vegetais como protetor solar e mostramos que seus valores de FPS são muito baixos e variáveis, além de não existirem análises suficientes que comprovem sua atuação para este fim. Adicionar óxido de zinco a estas gorduras vegetais e misturar com equipamentos comuns de cozinha não é garantia de proteção.

Analisando formulações naturais como as da Badger pode parecer relativamente fácil alcançar o mesmo resultado por meios artesanais – algumas têm somente ingredientes como óxido de zinco (ZnO) + óleos, manteigas e ceras vegetais. A maior parte das receitas caseiras segue esse padrão e pode incluir até uma correlação entre quantidade de óxido de zinco e FPS.

Infelizmente não é bem assim. Não é seguro formular um protetor solar sem acesso a testes laboratoriais e equipamento adequado.

1) Não é fácil incorporar o óxido de zinco de forma homogênea

 

Neste post [2] da Amanda Foxon-Hill, cosmetóloga e química australiana com 18 anos de experiência, a autora também recomenda que você não faça seu protetor solar. Para isto ela descreve seu caminho pessoal na formulação com óxido de zinco, e logo identifica uma das principais questões: é complicado misturar o óxido de zinco de forma homogênea a uma base e garantir que ele fique uniformemente disperso.

Isto acontece por causa da natureza química desta partícula: ela é insolúvel e fortemente polarizada, como se fosse um imã, fazendo com que atraiam umas às outras e formem aglomerados [2]. Neste caso, forma-se uma dispersão desigual do ingrediente na fórmula, levando a algumas partes com muito óxido de zinco e outras menos. Se isto ocorre, a proteção e a cobertura também será desigual: em vez de um filme homogêneo sobre a pele, o protetor será composto por “blocos” de óxido de zinco e buracos sem proteção, e não é possível verificar isto a olho nu. Ou seja, pode parecer que está tudo ótimo quando na verdade existem várias falhas na proteção.

badly clumped zinc sunscreen
Dispersão desigual de ZnO vista em microscópio. Créditos: Amanda Foxon-Hill [2]
Em uma entrevista para a Allure [3], a química cosmetóloga Ni’Kita Wilson diz:
Eu preciso de um equipamento de alta pressão chamado homogeneizador para quebrar as partículas de óxido de zinco e dióxido de titânio e distribui-las uniformemente por uma fórmulaDe nenhuma forma misturar com uma colher ou um mixer vai chegar perto disso, então você vai ter áreas inteiras da pele expostas aos raios UV”. Ela ainda diz que é difícil dispersar o óxido de zinco em óleo de coco por causa de sua consistência, mesmo com a tecnologia que ela possui. Ou seja, mesmo que você tente e pareça estar homogêneo, seu mixer ou batedeira não dão conta de dispersar o óxido de zinco de uma forma eficaz.

2) A confirmação do FPS requer testes in vitro e em humanos

 

A Amanda [2] também fala da grande quantidade de testes a que submeteu seus protótipos e produtos aprovados para comercialização. Ela descreve situações em que produtos que ela acreditava serem FPS 35 na verdade mostraram um valor de 12, demandando novas técnicas e uma série ainda maior de testes, que de forma geral são bem custosos.

Além de avaliações in vitro, os produtos devem passar por testes em humanos (de 10 a 20 voluntários aqui no Brasil) para garantir que possuem a performance desejada.  Este infográfico [4] da Associação de Indústrias Cosméticas do Reino Unido coloca de forma muito didática as etapas do processo de análise do FPS até que o produto seja aprovado.
Pequenas mudanças na formulação ou nas técnicas de produção podem afetar o FPS resultante, exigindo novos testes a cada vez que acontecem. Ou seja, existe um grande balanço físico-químico na formulação que não pode ser previsto em termos de FPS nem por químicos cosmetólogos experientes. A comprovação da proteção só ocorre com testes que mostram sua eficácia, e não é possível afirmar que “tantos gramas de óxido de zinco equivalem a tal FPS”.

Lembrando sempre que não ficar com a pele vermelha quando exposta ao sol usando filtro solar caseiro não é parâmetro algum de proteção! Pele bronzeada ou até mesmo sem alteração de tonalidade também pode significar dano ao DNA causado pela radiação solar direta ou indiretamente e isto não é verificável a olho nu ou sensorialmente [5] [6].

3) Formular um filtro solar requer conhecimento físico-químico dos ingredientes e suas interações

 

Este motivo pode parecer óbvio, afinal formular qualquer cosmético requer conhecimento sobre seus ingredientes e interações. O que queremos reforçar é que a questão dos protetores solares é muito mais séria e demanda conhecimento técnico especializado em sua elaboração, pois uma formulação errada passa falsa sensação de segurança e leva as pessoas a se exporem mais à radiação solar, confiando que estão protegidas. A gravidade da questão a que se relacionam filtros solares os tornam produtos muito regulamentados: nos Estados Unidos a FDA os avalia como medicamentos, enquanto no Brasil são considerados cosméticos de grau II pela Anvisa.

O FPS e o comportamento dos bloqueadores minerais pode ser afetado por inúmeros aspectos da fórmula e de sua preparação, que incluem pH, polaridade dos outros ingredientes, quantidade de óxido de zinco, sua granulometria e tratamento de superfície, dentre outros. [7] Quem desenvolve o protetor deve estar ativamente consciente de todos estes fatores e quais são as interações físico-químicas entre os ingredientes. Para isto é necessário, além de conhecimento em cosmetologia e dermatologia, equipamentos e local de trabalho adequados – ou seja, deve envolver profissionais especializados. Para elaborar seus produtos, a Amanda fala que sempre esteve acompanhada de seu homogeneizador, agitador mecânico, testes de estabilidade, microscópio e um enorme investimento em testes, e que mesmo com a experiência e os equipamentos adequados é fácil cometer erros – até mesmo grandes empresas os cometem, como aconteceu com os protetores da Honest, da atriz Jessica Alba [8].

Ou seja, para fazer um protetor solar adequado e seguro com óxido de zinco, é necessário: conhecimento químico e experiência em cosmetologia; equipamentos capazes de dispersar adequadamente o ingrediente; local adequado de trabalho; acesso a testes in vitro e in vivo que comprovem seu FPS.

Por isto utilize protetores solares minerais de atuação comprovada segundo as orientações do fabricante.
É possível encontrar em outros países protetores eficazes orgânicos completamente à base de óxido de zinco, mas infelizmente no Brasil este ramo caminha a passos bem lentos, onde não há protetores de base natural e pouquíssimos elaborados com bloqueadores minerais. A Cristal Muniz, do blog Um Ano Sem Lixo, fez um post minucioso falando sobre proteção solar e lá ela recomenda o protetor mineral da Adcos, de FPS 50. [Edit] A Nyle do Lookaholic também compilou os produtos disponíveis no mercado brasileiro que tem composições menos nocivas segundo a avaliação do EWG, vale a pena dar uma olhada.

Esperamos no futuro poder dar mais indicações por aqui, mas enquanto isso fica como referência de fórmulas a lista dos melhores protetores de 2016 nos EUA. [9]


1- Environmental Working Group. The trouble with sunscreen chemicals, em: http://www.ewg.org/sunscreen/report/the-trouble-with-sunscreen-chemicals/

2 – Amanda Foxon Hill. The trouble with making your own sunscreen. Realize Beauty, 2012, revisado em 2015, em: https://realizebeauty.wordpress.com/2012/12/30/the-trouble-with-making-your-own-sunscreen/
Todas as referências e imagens reproduzidas com autorização da autora.

3 – Allure. The Truth About Homemade Sunscreen Recipes: A Beauty Don’t, 2013, em: http://www.allure.com/story/homemade-sunscreens-dont-work

4 – The Cosmetic, Toiletry and Perfumery Association. How sunscreens are developed, em: http://www.thefactsabout.co.uk/document.aspx?fileid=2346

5 – Ryan Hopkins. How Ultraviolet Light Reacts in Skin Cells. Nature, 2015, em: http://www.nature.com/scitable/blog/scibytes/how_ultraviolet_light_reacts_in

6 – R. Greinert, B. Volkmer, S. Henning, E. W. Breitbart, K. O. Greulich, M. C. Cardoso and Alexander Rapp. UVA-induced DNA double-strand breaks result from the repair of clustered oxidative DNA damages, 2012, em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3488256/

7 – BASF, Creations Newsletter. Formulating with zinc oxide, 2015, em: http://creationsnewsletter.com/issue3/3.aspx

8 – David Kroll. The Failure Of Jessica Alba’s Honest Company Sunscreen Explained. Forbes, 2015, em: http://www.forbes.com/sites/davidkroll/2015/08/03/the-failure-of-jessica-albas-honest-company-sunscreen-explained/#24d082c1796e

9 – Environmental Working Group. EWG’s Guide to Sunscreens, 2016, em: http://www.ewg.org/sunscreen/best-sunscreens/best-beach-sport-sunscreens/


Imagem de capa: David Flores, CC BY 2.0

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