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óleo de melaleuca conservante natural

Por que óleo de melaleuca não é um conservante natural

Por: Trópica Botânica em 6 de outubro de 2017

Nativo da Austrália, o óleo de melaleuca (ou tea tree) é extraído da árvore Melaleuca alternifolia e possui múltiplas aplicações terapêuticas por conta de suas propriedades antimicrobianas. A Trópica Botânica aproveita a ação anti-inflamatória e antisséptica desse óleo essencial em várias formulações, como o Serum Facial Balanceador; o óleo multiuso Andiroba & Copaíba e o Shampoo Sólido Castanha, Lavandim & Tea Tree. Com base nessas propriedades, é muito comum ouvir que o óleo essencial de melaleuca pode ser usado como conservante natural em cosméticos. Isto não está exatamente correto, devido a muitas razões.

É normal e saudável buscar alternativas naturais para fugir ao uso de substâncias nocivas, especialmente conservantes, como os parabenos. No entanto, conservação cosmética e alimentícia é assunto sério. Ele deve estar pautado por inúmeros testes microbiológicos de eficácia, que variam de produto para produto. Por isso queremos explicar melhor os motivos pelos quais o óleo de melaleuca não é eficaz o suficiente para ser empregado como conservante natural em cosméticos. Ao fazer isto, você pode se expor a um risco de contaminação sem perceber.

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Cristalino, de aroma herbáceo, fresco e terpênico, o óleo de melaleuca tem propriedade anti-inflamatória e antisséptica.

 

1. Cosméticos naturais de base aquosa são perfeitos para o desenvolvimento de microrganismos

Cosméticos naturais aquosos tem tudo aquilo que microrganismos precisam para se desenvolver. Umidade, temperatura ambiente e muitos nutrientes vegetais em seus ingredientes botânicos. Dependendo da composição, um cosmético vai possuir risco maior ou menor de contaminação e desenvolvimento. Por isso é necessário pensar seriamente em como evitar que fungos e bactérias proliferem no produto!

Para isso, muitos fatores devem ser considerados. Teor de água, pH, concentração de matéria-prima suscetível à degradação (como argilas, extratos botânicos e mel), interação entre as matérias-primas, dentre outros aspectos. Geralmente um cosmético natural apresenta um desafio maior de conservação, justamente por possuir tantos ingredientes naturais nutritivos e minimamente processados.

2. Ação antimicrobiana não quer dizer necessariamente conservante de amplo espectro

Muitos estudos já avaliaram o potencial antimicrobiano do óleo de melaleuca para certos fungos e bactérias, obtendo relativo sucesso. Porém, isto não pode ser automaticamente interpretado como “óleo de melaleuca é conservante”. Vários desses testes foram realizados in vitro, segundo metodologia específica, e não exatamente em cosméticos. Para conservar cosméticos, o crescimento de vários tipos de organismos (bactérias gram-positivas, bactérias gram-negativas e fungos) deve ser inibido durante um longo período de tempo. Para isso é necessário um conservante de amplo espectro testado e comprovado. Em muitos casos, é necessária a combinação entre conservantes para atingir o amplo espectro. 

É possível que óleos essenciais ou substâncias isoladas desses ingredientes possam ser utilizadas na fabricação de conservantes ou fármacos de ação antimicrobiana. Sabe-se que alguns óleos essenciais são eficazes em impulsionar a conservação quando associados a conservantes comuns. [1] Entretanto, quando usados sozinhos em muitos casos, não apresentaram resultados satisfatórios de conservação segundo os critérios esperados. [1]

Como coloca a farmacêutica especialista em cosméticos naturais Eliziane Pozzagnolo [2], para que certos óleos apresentem o efeito de conservante natural, sua concentração seria tão alta que tornaria o produto inadequado para uso. A maioria dos óleos essenciais tem concentrações dérmicas recomendadas bem baixas. Lembramos que alguns dos óleos essenciais mais eficazes no combate a microrganismos, como cravo, orégano e canela, apresentam risco de sensibilização e devem ser usados em concentrações mínimas na pele. No caso de cosméticos, essa preocupação é fundamental pois o uso é constante e diário!

3. A conservação de um produto deve ser comprovada com testes microbiológicos, num período longo de tempo

Como dissemos, a conservação deve ser testada e comprovada. Testes organolépticos (cheiro, visual) não são suficientes para esse fim! Ou seja, não é possível afirmar que um cosmético está conservado só porque não desenvolveu bolor. É necessário que o produto passe por testes microbiológicos precisos para que isso seja afirmado, geralmente conhecido por teste de desafio

De acordo com a Farmacopeia Europeia, um teste de desafio consiste em inocular um produto propositalmente com algumas espécies de microrganismos em concentrações determinadas, e avaliar de tempos em tempos se essa concentração diminui. As espécies usadas são Staphylococcus aureus, Pseudomonas aeruginosa, Escherichia coli (bactérias), Candida albicans e Aspergillus niger (fungos). As amostras são retiradas e avaliadas durante até 28 dias para atestar se os microrganismos foram realmente inibidos.

Cada produto é diferente e vai precisar de um teste de desafio! Até conservantes convencionais, não permitidos na cosmética natural, podem falhar nesses testes. Por isso, cosméticos naturais e orgânicos são ainda mais desafiadores no quesito conservação.

4. O ambiente caseiro de preparação não é controlado o suficiente para minimizar a contaminação

A fabricação de cosméticos deve seguir as Boas Práticas de Fabricação (BPF) estabelecidas por norma. O ambiente deve ser controlado para minimizar todo tipo de contaminação. Isso inclui higiene adequada do local, equipamento de proteção individual (jaleco, touca, máscara, luvas etc), instalações adequadas, equipamentos de material inerte (como inox), sistema de ventilação e exaustão, dentre outras exigências. Provavelmente sua casa não está preparada em todos esses critérios, então seu cosmético aquoso artesanal está muito mais suscetível à contaminação do que se fosse feito num laboratório preparado para esse fim!

Ou seja, nāo dá pra dizer que o óleo de melaleuca vai ser um conservante natural apenas por possuir ação bactericida ou fungicida. Também não podemos afirmar isto sobre qualquer óleo essencial.
Sua ação como conservante cosmético de largo espectro não está comprovada nas concentrações adequadas. Para que funcionassem, teriam que ser usados em concentrações muito altas. Além disso, o teste de conservação deve ser feito para cada formulação diferente. Estudar profundamente as ações de cada óleo essencial e suas finalidades é sempre a melhor forma de garantir sua segurança e eficácia ❤️


1 – Dreger, M.; Wielgus, K. Application of essential oils as natural cosmetic preservatives. In: Herba Polonica, Vol. 59, n. 4, 2013.

2 – Cosmetologia Orgânica, Q&A Conservantes, maio/2007, disponível em: http://www.cosmetologiaorganica.com.br/conservantes/


Imagens:

Capa: JulieAnne van der Lek, Creative Commons.
Texto: Acervo Trópica Botânica, 2017

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