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Micro esferas esfoliantes, macro problemas ambientais

Por: Trópica Botânica em 5 de setembro de 2016

Enquanto pesquisava micro resíduos de plástico nos Grandes Lagos, nos Estados Unidos, Stiv Wilson achou algo inesperado: micro esferas de plástico que não eram fruto da degradação de pedaços maiores, eram eles mesmos pequenos poluentes em seu formato original. Intrigado com esses resíduos, Stiv começou a pesquisar sobre eles e descobriu algo surpreendente: estas bolinhas eram micro esferas esfoliantes de plástico utilizadas em produtos cosméticos de todo o tipo, desde cremes para o rosto e sabonetes até pasta de dentes e creme de barbear.

Em sua pesquisa descobriu que as micro esferas são feitas basicamente de polietileno, polipropileno, politereftalato de etileno (o PET), polimetil-metacrilato (o acrílico) ou nylon. São esferas leves e flutuantes, e de tão minúsculas os sistemas de tratamento de esgoto não conseguem filtrá-las, o que significa que saem direto do ralo das casas para poluir rios, mares e lagos em todo o mundo.

Fosse apenas este o problema já seria suficientemente ruim, uma vez que esse tipo de micro partícula interfere na troca gasosa e na luz que reflete dentro dos lagos e oceanos – mas a coisa piora.

Esses materiais plásticos absorvem facilmente substâncias chamadas poluentes orgânicos persistentes: ou seja, são compostos tóxicos estáveis, que não degradam no meio ambiente e têm a capacidade de se bioacumular nos seres vivos que os consomem. Assim, o camarão come micro-esferas cheias de poluentes orgânicos persistentes, o peixe come camarões contaminados, a gaivota come peixes contaminados e no final da cadeia todos comeram direta e indiretamente um monte de poluentes tóxicos contidos na vida marinha – isso quando não é o ser humano o consumidor final desta cadeia.

Apesar de pequenas, essas micro esferas estão em grandes quantidades nos produtos esfoliantes, chegando a constituir 10% de alguns deles (só pra ter uma ideia, os cientistas estimam que o Neutrogena Deep Clean possa ter até 360.000 micro esferas esfoliantes em apenas uma embalagem!). Quando jogadas nos oceanos se espalham facilmente através das correntes marítimas, sendo impossível despoluir com eficiência toda essa extensão.

Micro beads and other plastic particles taken from Lake Ontario near Dunkirk, N.Y.
Micro esferas esfoliantes e outras partículas plásticas retiradas do Lago Ontário, próximo a Dunkirk, N.Y., 03 dez 2013. (Imagem: Brendan Bannon/The New York Times)

Diante desse cenário surgiu o Beat the Microbead, uma campanha que visa banir essas micro esferas dos produtos cosméticos – o que precisaria contar com a ajuda das grandes indústrias que as produzem. Surpreendentemente elas não quiseram colaborar, uma vez que usar substitutos orgânicos diminuiria seus lucros, enquanto poluir e degradar lagos e oceanos, colocando em risco a já frágil vida marina que temos, não.

A pele humana não precisa de esfoliação diária. De fato, morar em grandes cidades com ar extremamente poluído pode levar a um acúmulo de resíduos de queima de combustíveis e outras toxinas pela nossa pele, que podem sair com água, sabão e leve exfoliação (ou podem simplesmente não sair 🙁 ). Como alternativas naturais para esfoliação existem sementes diversas que podem ser incorporadas a manteigas hidratantes caseiras (adicionar sementes de beldroegão a uma manteiga caseira de abacate, por exemplo) e o barato e eficiente café ou sal! Uma forma ainda mais fácil e delicada de esfoliar a pele são movimentos circulares bem leves com a bucha vegetal, durante o banho, sem fazer força extra que possa lesionar a pele. De preferência sem utilizar shampoos e sabonetes com lauril sulfato de sódio, uma substância que irrita e danifica a pele, além de deixá-la mais absorvente a todo tipo de partícula indesejável.

Se as grandes indústrias se recusam a abandonar as microesferas, que pelos menos a gente possa adotar novos hábitos e abandonar as indústrias.

Atualização: as microesferas esfoliantes foram proibidas nos Estados Unidos! Mais informações aqui. Por hora desconheço a repercussão aqui no Brasil.


Imagem de capa: Brendan Bannon/The New York Times, 2013

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