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Como usar manteiga de cacau na cosmética natural

Por: Trópica Botânica em 5 de setembro de 2016

Há muito tempo um dos ingredientes mais populares e amplamente utilizado na culinária e na cosmética natural, a manteiga de cacau é uma das mais lembradas no tratamento da pele e dos cabelos.
Quando orgânica e prensada a frio, preserva seu aroma característico e remete a chocolates finos de altíssima qualidade (que são, por sinal, veganos 🙂 ).

O cacau

O cacaueiro (Theobroma cacao) é uma árvore de pequeno porte nativa das regiões tropicais da América do Sul e Central, que aceita sombreamento por árvores maiores e foi utilizada por muitas civilizações ameríndias para fins alimentares e ritualísticos. O gênero de seu nome científico vem do grego, em que theos significa “deus” e broma significa “comida”, literalmente “comida dos deuses”. Embora todo mundo consuma chocolate e associe a alcunha de “comida dos deuses” ao chocolate industrializado cheio de leite e açúcar, poucos conhecem de fato o fruto do cacau. Ele é oval e sua coloração varia do amarelado ao roxo, apresentando em seu interior uma polpa branca que envolve as sementes. A polpa é deliciosa e era utilizada por povos tradicionais em sua alimentação e seus rituais, da mesma forma que os grãos, e é de se lamentar que hoje em dia a polpa praticamente não seja valorizada enquanto alimento riquíssimo por aqui.

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Fruto do cacau. Imagem: CPT/divulgação
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Corte do fruto em detalhe. Imagem: USDA/Divulgação

Os grãos, sementes da planta, que já serviram como moeda para povos pré-colombianos, se tornaram o principal motivo pelo qual monoculturas de cacau foram organizadas em países tropicais desde o período colonial, para suprir a inicialmente europeia e atualmente mundial obsessão por chocolate. Como o cacau é uma planta sensível, comumente estas monoculturas podem ser perdidas para doenças e infestações, a menos que se utilizem agrotóxicos, o que compromete absolutamente a qualidade do produto e o meio ambiente.
Para garantir o cacau orgânico de qualidade, são necessárias iniciativas distintas e agroecológicas, incorporando a planta à floresta nativa, como é o caso dos cultivos agroflorestais, sintrópicos e altamente biodiversos desenvolvidos pelo suíço Ernst Götsch, o precursor dos sistemas agroflorestais no Brasil.
No Brasil já existem iniciativas de cultivo de cacau agroecológicas para produção de chocolates de altíssima qualidade, como é o caso da AMMA 🙂

A manteiga

A manteiga de cacau é obtida através da prensagem das sementes tostadas (ou cruas, secas ao sol, valorizadas na cozinha crudívora), que apresentam um conteúdo gorduroso ao redor de 54%. Sua coloração é amarelada, com consistência sólida (ponto de fusão aproximado de 34°C). Apresenta aroma e sabor característicos do cacau, e por este motivo é comum que seja desodorizada para a utilização cosmética, embora nossa preferência seja pela manteiga orgânica de grau alimentício com seu fantástico aroma original.

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As duas consistências: in natura na temperatura ambiente e derretida, mantendo sua coloração amarelada.

É uma manteiga vegetal altamente estável por conta de sua composição: além de uma grande proporção de gorduras saturadas, possui vitamina E e polifenóis, compostos antioxidantes naturais que previnem a formação de radicais livres. Possui textura aveludada e derrete facilmente quando em contato com a pele, fazendo desta uma manteiga suave e adequada para diversos tipos de cremes e bálsamos. Tem grande poder emoliente e o fato de não ser prontamente absorvida também a faz adequada para massagens.
Além de tudo, traz fitoesteróis, substâncias vegetais de composição similar ao colesterol com capacidades anti-inflamatórias e que recuperam a barreira natural da pele. [1] [2]

Composição média de ácidos graxos da manteiga de cacau

Ácidos graxos saturados: 61% (~28% palmítico e 33% esteárico)
Ácidos graxos insaturados: 38% (~35% oleico e 3% linoleico)
Triglicerídeo principal: palmítico-esteárico-oleico [3]

Lembrando que a composição média é uma referência mas a composição real da sua manteiga dependerá da matéria-prima e como foi processada. Se possível exija laudo de análise do lote obtido.

Principais características e aplicações

  • Alta capacidade emoliente de forma geral, contribuindo para a diminuição da perda de água transdérmica e a nutrição da pele, deixando-a macia e suave;
  • Especialmente indicada para peles sensíveis e secas, pode ser utilizada pura. É considerada levemente comedogênica (pode entupir poros), então deve ser evitada no rosto para peles oleosas, acneicas ou com poros largos;
  • Devido a sua consistência, pode auxiliar na composição de cremes e bálsamos sólidos e pastosos, ajudando a proteger outros óleos e manteigas da rancificação;
  • Suaviza marcas e cicatrizes;
  • Em sabonetes naturais cold process, traz potencial limpante com cremosidade e dureza.

A manteiga de cacau se torna, assim,  especialmente apropriada para áreas extremamente ressecadas, como pés, joelhos, cotovelos e calosidades, e é muito eficiente mesmo em quantidades pequenas. Peles sensíveis também se beneficiam largamente, pois é apropriada até para suavizar assaduras e alergias de pele em bebês. De forma geral, ela será suavizante e hidratante, contribuindo para níveis adequados de água na pele e um aspecto saudável com menos marcas e danos.
Sua capacidade emoliente faz com que forme uma camada que protege a superfície da pele e pode auxiliar em cicatrizes e feridas em recuperação, tanto por seus ácidos graxos quanto compostos insaponificáveis. Além disto, pode ser utilizada pura como um potente hidratante labial completamente natural e seguro de ser ingerido.

Extremamente versátil, a manteiga de cacau ainda pode ser utilizada em receitas para incrementar chocolates, cremes, bolos e tortas cruas e adicionar um delicioso tom legítimo de cacau, sem aromas artificiais.

Antes de obter uma manteiga de cacau, veja se é desodorizada ou não.
Como dissemos, é muito comum que o uso cosmético seja da manteiga desodorizada, pois naturalmente ela possui um aroma evidenciado que compete com as fragrâncias. Ainda, há de se tomar cuidado com manteigas às quais são adicionadas fragrância artificial de cacau (como as manteigas de cacau para lábios vendidas em farmácias, onde são adicionados óleos minerais e aroma sintético).
Nós, no caso, preferimos a manteiga prensada a frio orgânica e virgem, incorporando seu delicioso aroma aos nossos produtos.

Caso queira derreter a manteiga, ela deve ser esquentada em banho-maria lentamente e sem que sua temperatura ultrapasse os 50°C. Quando é esquentada, a manteiga de cacau tem sua estrutura cristalina alterada para uma forma menos estável, sendo possível que não retorne ao estado sólido imediatamente após o resfriamento. Com o tempo os cristais passam a naturalmente se reverter para a forma estável dando novamente sua dureza característica. A questão é que existem seis formas diferentes de cristais da manteiga, que vão dar origem a estruturas e propriedades distintas. [4]

Sua vida útil é longa, de 2 a 3 anos, otimizada por uma estocagem adequada ao abrigo de luz solar e calor.


[1] Navin M. Geria. “The role of phytosterols in cosmeceutical products”, 2009, em: https://www.thefreelibrary.com/The+role+of+phytosterols+in+cosmeceutical+products.-a0214793388

[2] Norhayati Hussain e Roiaini Mohamad . “Effect of Different Solvents on Phytosterols and Antioxidant Activity of Cocoa Beans”. International Journal of Food Engineering Vol. 1, No. 1, June 2015, em: http://www.ijfe.org/uploadfile/2015/0618/20150618055521287.pdf

[3] M. Lipp e E. Anklam. “Review of cocoa butter and alternative fats for use in chocolate-Part A. Compositional data”. Food Chemistry, Vol. 62, No. 1, pp. 73-97, 1998, em: http://nfscfaculty.tamu.edu/talcott/courses/FSTC605/Class%20Presentation%20Papers-2015/Review-Cocoa%20Butter.pdf

[4] Alejandro G. Marangoni e Sara E. McGauley. “Relationship between Crystallization Behavior and Structure in Cocoa Butter2003″, em:  http://pubs.acs.org/doi/abs/10.1021/cg025580l

Imagem de capa: Acervo pessoal, 2016

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