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A diferença entre sabões com lauril sulfato de sódio e os naturais

Há alguns anos, quando começamos a fazer sabões para uso pessoal, uma das coisas que mais nos incomodava e nos estimulou a seguir esse caminho era a massiva presença de lauril sulfato de sódio [LSS] em alguns produtos convencionais que estávamos abandonando – nossas peles são relativamente sensíveis e o uso de sabonetes convencionais nos causava algumas reações adversas, enquanto o uso de shampoos enfraquecia meus fios, que são cacheados.

Este ingrediente, também chamado dodecil sulfato de sódio, e com ação e estrutura semelhantes ao lauril éter sulfato de sódio [LESS],  pode ser encontrado em produtos que vão de lava-louças a pasta de dente e é um dos principais agentes limpantes escolhidos em sabonetes e shampoos. Há anos existe bastante movimentação contra sua presença, o que suscitou a busca e implementação de alternativas tanto sintéticas quanto naturais – mas ainda assim é possível encontrá-lo em grande parte dos produtos de higiene corporal, mesmo em alguns que se caracterizam como naturais.

Mas afinal, que tipo de substância é o lauril sulfato de sódio?

O laurilsulfato é definido como um surfactante ou tensoativo. De maneira simplificada, surfactantes são substâncias que apresentam um grupo hidrofóbico (que repele água) e um grupo hidrofílico (que atrai água) em sua molécula. Essa estrutura química dá aos surfactantes a capacidade de atuar na interface entre ar/água ou entre sólidos/água, influenciando as propriedades nessa superfície de contato, alterando a forma como a água interage com os grupos hidrofóbicos pela diminuição de sua tensão superficial. [1]

Modelo esquemático de um surfactante

No caso do contato sujeira/água, o que ocorre é que, ao se conectar à gordura e à água ao mesmo tempo, os surfactantes arrastam as moléculas de gordura em uma solução aquosa e promovem a limpeza de nossa pele. Surfactantes são capazes de fazer isso de maneira organizada, também em função de suas propriedades químicas, através de estruturas denominadas micelas.

O lauril sulfato é um ingrediente extremamente barato para a indústria, podendo ser originado de fontes sintéticas ou naturais (ácidos graxos do coco ou da palma). Ele é produzido a partir do ácido láurico, que é reduzido para álcool laurílico e posteriormente passa por uma reação com ácido sulfúrico, sendo neutralizado com hidróxido de sódio para chegar no produto final. [2]

Que problemas o lauril sulfato pode trazer?

O LSS é extremamente eficaz em arrastar a gordura e a sujeira, o que faz com que esse ingrediente largamente presente em shampoos e sabonetes remova toda a oleosidade natural da nossa pele, deixando-a desprotegida e ressecada. A ação desse surfactante vai aumentar a perda de água transdérmica (TEWL) e pode levar a rachaduras e inflamações na epiderme. Não à toa, o LSS é rotineiramente utilizado em testes clínicos para induzir irritações. [3]

Embora seja considerado seguro segundo padrões da indústria cosmética e possa ter seus danos minimizados, o potencial de irritação do LSS é bem conhecido e documentado, especialmente quando utilizado em concentração mais altas, a partir de 2%. [4] A maioria desses resultados infelizmente teve por base pesquisas em animais, às quais a Trópica se opõe veementemente – porém, testes em animais foram proibidos em 2013 na União Europeia e atualmente já existem resultados recentes baseados em testes in vivo em humanos que mostram o potencial de irritação dessa substância quando usada repetidamente no mesmo local, principalmente em concentrações a partir de 5%. [5] Alguns fatores vão influenciar a suscetibilidade à irritação, como local de aplicação, concentração, tempo e frequência de uso, idade, tipo de pele, dentre outros. De forma geral, os maiores riscos aparecem com altas concentrações, aplicação constante, peles e áreas sensíveis como mucosas, e em crianças e idosos.

Um estudo realizado no Instituto de Química da Unicamp mostrou que a imersão do cabelo em LSS a 5% é capaz de promover uma perda proteica nos fios duas vezes maior que a imersão em água. [6] Outra dissertação de mestrado no mesmo instituto também avaliou a degradação causada por diferentes tensoativos, mostrando que tensoativos aniônicos como o LSS e o LESS (lauril éter sulfato) são responsáveis por provocarem as maiores perdas de material proteico capilar quando comparados com outros tipos de surfactantes e água. [7]

Embora existam várias afirmações que o LSS possa causar câncer, não há estudos conclusivos que mostrem essa relação.

sabonete natural vegano

Qual é diferença do LSS para um sabonete natural?

Do ponto de vista da atuação química, um sabão feito pela saponificação de óleos e gorduras vegetais também é um surfactante. Essa é uma definição técnica que não pode ser contestada: da mesma forma que outros tensoativos, o sabão também será responsável por englobar as moléculas de gordura e sujeira e arrastá-las na solução através das micelas. É provável que o sabão seja um dos surfactantes mais antigos conhecidos pela humanidade, juntamente às saponinas produzidas por algumas plantas.

A questão é que o sabão natural pode ser muito mais gentil, geralmente incorporando uma formulação que limpa de maneira equilibrada e suave. Sua obtenção se dá através da saponificação de óleos e gorduras vegetais, o que do ponto de vista da cadeia de produção é menos impactante do que a produção em massa de lauril sulfato – até porque na grande maioria dos casos os sabões naturais são produzidos artesanalmente em pequena escala. Esses óleos e gorduras podem estar em excesso e promover um efeito suavizante e emoliente da pele. Idealmente não existem aditivos sintéticos ou prejudiciais nos sabonetes naturais feitos do zero, que mantém uma composição mais pura, fazendo uso de outros ingredientes naturais para conferir coloração e aroma. Nos sabões da Trópica levamos este ponto extremamente a sério e nunca adicionamos fragrâncias artificiais ou corantes sintéticos, indo de encontro a padrões criteriosos de formulação para barras condicionantes e balanceadas.

Lembramos que é possível que um sabão mal formulado seja também agressivo para a pele, por ter pH muito elevado ou até excesso de hidróxido de sódio. Certifique-se de que a empresa ou pessoa fazendo o sabonete ou shampoo sólido domina solidamente o conhecimento teórico e prático necessário no ramo da saboaria.

O que fazer no caso de peles sensíveis?

Sabonetes naturais de formulação branda e bem elaborada podem se adaptar a todos os tipos de pele, por isso vale a pena conversar com a empresa e testar o sabonete mais suave que tiverem. Da mesma forma, em alguns casos peles muito sensíveis podem apresentar reações mesmo com o mais gentil dos sabões, devido a suas características tensoativas de pH alcalino. Por isso, se sua pele tem histórico de sensibilidade e não se adaptou bem a um sabão natural, procure orientação profissional. Provavelmente serão recomendados produtos de limpeza facial elaborados com surfactantes gentis e pH próximo ao do manto da pele, ou mesmo uma limpeza somente com água 🙂


Referências

[1] Farn, Richard J. [org.] “Chemistry and Technology of Surfactants”. Oxford: Blackwell Publishing, 2006, p. 1-43.

[2] Foxon-Hill, Amanda. “Sodium Laureth Sulfate – What’s the fuss about?”. Blog Realize Beauty, 24/02/2009.

[3] Trotter S. Neonatal skincare: why change is vital. RCM Midwives. 2006;9:134-8

[4] Cosmetic Ingredient Review (CIR). “Final report on the safety assessment of sodium lauryl sulfate and ammonium lauryl sulfate”. Int J Toxicol. 1983;2(7):127–81. Disponível em: http://journals.sagepub.com/doi/abs/10.3109/10915818309142005

[5] Horita et al. “Effects of different base agents on prediction of skin irritation by sodium lauryl sulfate using patch testing and repeated application test”.

[6] Wagner, Rita de Cássia Comis. “Degradação do cabelo decorrente do tratamento contínuo com lauril sulfato de sódio e silicone”. Dissertação (mestrado). Campinas: Universidade Estadual de Campinas/Instituto de Química, 2003.

[7] Pires-Oliveira, Rafael. “Degradação de cabelo causada por tensoativos: quantificação por meio da análise das soluções de lavagem por espectrofotometria UV-VIS”. Dissertação (mestrado). Campinas: Universidade Estadual de Campinas/Instituto de Química, 2013.


Imagens: Trópica Botânica

Como usar shampoo sólido natural na rotina capilar

Shampoos sólidos tem se tornado cada vez mais populares como escolha natural de limpeza dos cabelos, mas ainda existem muitas dúvidas sobre como utilizá-los e como se dá a transição. Entender como atuam é importante para escolher os produtos mais adequados para seus fios. Então, o que é um shampoo sólido?

Shampoos sólidos podem ser formulados de muitas formas!

Shampoo sólido é um produto em barra para higienizar o couro e os fios, podendo trazer outros benefícios associados, como brilho e hidratação. Este termo se refere mais especificamente ao formato de apresentação.

Por isto, é importante diferenciar dois tipos principais de formulação: 1) aquelas obtidas diretamente pela saponificação de óleos e gorduras e 2) aquelas que incorporam surfactantes previamente sintetizados, que podem ser de fontes naturais ou não, como lauril sulfato de sódio ou cocoamidopropil betaína (tecnicamente sabão também é um surfactante, mas aqui fazemos essa diferenciação devido ao modo de produção).

Os shampoos sólidos naturais, como os da Trópica, são geralmente aqueles formulados somente a partir da saponificação de gorduras e óleos, sendo compostos de sais de ácidos graxos (o sabão efetivamente, que também tem ação surfactante e arrasta a sujeira durante o banho) e glicerina (umectante e condicionante) obtida naturalmente neste processo. Eles podem utilizar bases previamente saponificadas (geralmente de coco), ou saponificar diretamente no processo – a quente ou a frio – a mistura desejada de óleos e manteigas.

Então, a primeira coisa a entender no seu shampoo sólido é: ele tem outros surfactantes ou somente óleos e gorduras saponificados? Se tem outros compostos, ele é potencialmente irritante para a pele e nocivo ao ambiente?

Shampoos de saponificação natural tem características próprias

A primeira coisa a se considerar quando entramos nesse assunto é o pH dos shampoos sólidos naturais, que sempre será alcalino, geralmente variando de 8 a 10. Considerando que o pH ideal dos fios é 5,5, um produto de pH alcalino pode elevar a energia eletrostática nos cabelos, aumentando a repulsão e fricção entre os fios. Muitas pessoas utilizam shampoos sólidos e não sentem essa alteração. Outras, no entanto, são adeptas do enxague com vinagre (de maçã e orgânico) após a lavagem com o shampoo natural – o pH ácido dessa solução re-equilibra a estática dos fios e os deixa mais soltos e leves. Condicionadores também pode ser usados para este fim, e ressaltamos a escolha por formulações naturais sem silicones e parafinas, pois estes compostos não são retirados com shampoo natural.

Para o enxágue com vinagre de maçã orgânico:
Dilua 1 colher de sopa (15 mL) de vinagre de maçã em 1L de água filtrada e finalize os fios após retirar todo o shampoo. Essa pequena diluição é suficiente para um pH em torno de 3 que ajudará a balancear a estática dos fios.

Shampoos naturais não costumam levar agentes catiônicos ou sequestrantes em sua formulação. Por isso, sua capacidade de limpeza pode ser afetada em casos de água dura, ou seja, água com grande concentração de íons cálcio e magnésio. Uma água que possui 100mg/L de CaCO3 (carbonato de cálcio) já pode ser considera meio-dura. Procure saber com o departamento de águas da sua cidade qual é a situação. Nesses casos pode ser necessário reaplicar o produto, esfregar bem pra produzir a espuma desejada ou optar por formulações específicas.

Shampoos sólidos são fáceis de aplicar, tem ótima durabilidade
e podem se adaptar a vários tipos de fios

como utilizar shampoo sólido

Estas são orientações gerais e com o tempo você encontrará um método que se adapta melhor a seus cabelos. Não há problemas em esfregar a barra diretamente, ou lavar mais as raízes ou o comprimento. Tudo depende de como seu cabelo responde e como você se sente confortável.

É importante optar por produtos que também sejam adequados para seus fios. Geralmente a formulação de ingredientes nos shampoos é feita pensando em auxiliar no tratamento de condições específicas, ou promover a regulação ou a hidratação necessárias para cada tipo de fio. Em caso de dúvidas, contate as pessoas/empresa que fazem seu shampoo e busque saber qual deles se adapta melhor a seus cabelos.

Às vezes, a opção pelos produtos naturais requer um período de transição

Cabelos diferentes podem responder de maneiras distintas aos produtos aplicados. Estes são aspectos individuais e muito variáveis de pessoa pra pessoa. Ou seja, um shampoo pode ser ótimo pra você desde a primeira lavagem, enquanto em outras pessoas causa a sensação de ressecamento ou de fios pesados. É fundamental compreender que existe um período de adaptação, que para algumas pessoas chega a durar mais de 1 mês, até que possamos avaliar de fato como o cabelo está respondendo – para isso é necessária paciência 🙂
Finalizando, aqui vão duas dicas para auxiliar a resolver algumas reações mais comuns durante a adaptação aos shampoos sólidos:

Fios secos após a lavagem: Pode ser resolvido optando por uma formulação mais hidratante e recomendada para esses casos. A umectação com óleos vegetais também é bem eficaz, ou utilizar algum óleo leve como leave-in após a lavagem, que sele a umidade nos fios. Condicionadores naturais também ajudam.

Fios pesados após a lavagem: Pode ser causado pela estática, excesso de oleosidade (em processo de regulação e adaptação ao shampoo) ou até resíduos de oleosidade + shampoo que não foram completamente removidos durante o enxague (como no caso da água dura, que citamos lá em cima). Neste caso, pode ser necessário escolher um shampoo ligeiramente mais adstringente. Também é possível usar o shampoo em maior quantidade nas raízes, enquanto usa a própria espuma da lavagem no comprimento.

E, claro, em ambos os casos, recomendamos a realização do enxague com vinagre para promover o equilíbrio estático dos fios 🙂


Imagens: Trópica Botânica