6 opções para limpar a casa com ingredientes naturais

Existe ainda bastante insegurança em relação a manter uma rotina de limpeza da casa com produtos naturais, já que à primeira vista é comum acreditar que eles não limpariam tão bem assim quanto os convencionais. Essa preocupação leva geralmente a uma mistura de grandes concentrações de cloro, saponáceos, detergentes e limpadores multiuso na esperança de que a quantidade seja garantia de casa limpa, o que muitas vezes não é acompanhado de cuidados como o uso de máscaras e luvas em seu manuseio.

Cada um desses produtos tem listados dezenas de ingredientes tóxicos sobre os quais não se tem muito conhecimento difundido – nem sobre os efeitos deles no nosso corpo a curto e longo prazo, nem sobre seu impacto no meio ambiente – onde irão parar depois de serem escorridos pelo ralo.
A EWG lançou em 2016 uma versão recente sobre a pesquisa que fizeram sobre produtos de limpeza da casa e os dados são assustadores: quase 3/4 deles contém ingredientes com efeitos preocupantes no trato respiratório, mais de 1/4 contém ingredientes ou impurezas ligados ao câncer e mais de 10% são corrosivos a ponto de causar danos permanentes aos olhos e à pele. Ainda, 60% deles apresentam riscos de médio a grave ao meio ambiente, já que o saneamento básico da água não inclui tratamento para quebra desses compostos.

A boa notícia é que é possível limpar a casa sem se intoxicar e minimizando o impacto ambiental daquilo que vai ser o subproduto da sua faxina 🙂
Segue uma lista de dicas de produtos que você provavelmente já tem em casa mas ainda não sabia que podia usar com segurança e eficiência na limpeza!

1. Use um verdadeiro sabão natural

Prefira sempre sabões em barra naturais, como os feito de óleo de coco ou reuso de óleo culinário. Não basta estar escrito “sabão de coco”, tem que ler os ingredientes e certificar de que são óleos saponificados, também indicados como sais de sódio ou potássio (sodium palmate, sodium olivate, etc). Pode ser utilizado para lavar louça, roupa, banheiro, chão e até mesmo bem diluído em água para passar pano em móveis de madeira.

Detergentes e sabões em pó contém lauril sulfato de sódio, um surfactante que faz mal pra gente e pros ecossistemas onde ele é descartado. Muito poderoso, o lauril sulfato de sódio irrita e pele e apresenta efeitos tóxicos para a vida marinha, afetando também a tensão superficial da água nos ecossistemas.
Todo sabão é tensoativo, ou seja, tem a capacidade de diminuir a tensão superficial da água e ligá-la com outro líquido que está separado dela – no caso, o óleo, sujeira, gorduras etc.
Até mesmo os sabões naturais, apesar de biodegradáveis, são tensoativos – o que significa que devem ser usados com consciência, cautela e parcimônia para que tenham um impacto ambiental reduzido.

2. Descubra o potencial do bicarbonato de sódio

O bicarbonato de sódio até ocorre em alguns lugares de forma natural, mas o que utilizamos em larga escala no Brasil é geralmente sintético. Ou seja, esse não é um ingrediente 100% natural, mas é imensamente menos agressivo que os produtos de limpeza convencionais!
Ótima indicação para lavar roupas (1/3 de copo para a lavagem é suficiente), fogão (é um desengordurante poderoso, muito melhor que os saponáceos), pia, banheiros e para aplicar em locais muito úmidos que tendem a desenvolver mofo, como armários e estantes de livros.

É comum recomendar a mistura com o vinagre, mas do ponto de vista químico isto não aumenta sua limpeza. A mistura desses dois ingredientes caracteriza uma reação química de neutralização ácido-base. Então, quando você combina bicarbonato e vinagre, eles se “anulam” e viram gás carbônico (caracterizando as bolhas observadas na reação), água e acetato de sódio (um sal) diluído, ou seja: uma solução aquosa com baixa concentração de sais. Tem algum problema nisso? Não, mas também não há benefícios que justifiquem a mistura, que é inclusive mais fraca pra limpeza que o ingrediente isolado.
Portanto, uso-os separadamente para ter seu potencial completo!

(Devido a seu pH alcalino, o bicarbonato pode causar sensibilidade em algumas peles. Manuseie sempre com luvas para minimizar este risco.)

3. Aproveite a versatilidade do vinagre e do álcool

Coringas multiuso, álcool ou vinagre (preferencialmente de álcool ou de maçã) têm ótima ação limpante – e o vinagre ainda pode atuar como um eficiente amaciante de roupas.
São muito indicados para desinfetar bancadas, limpar armários, paredes, azulejos e até mesmo espaços de animais domésticos, como camas e caixinhas de areia (nestes casos, seque o utensílio antes de devolver aos animais).
Se quiser um aroma agradável e potencializar a ação de limpeza, adicione algumas gotas de óleo essencial (10 gotas a cada 100 mL, com agitação antes de aplicar) ou deixe ervas em infusão, como lavanda, alecrim ou capim santo.

álcool bucha vegetal bicarbonato sódio
Solução de álcool com óleo essencial de eucalipto, bicarbonato de sódio e bucha vegetal.

4. Reaproveite as cascas de frutas cítricas

Cascas de limão, laranja ou tangerina contém óleo essencial e podem ser aproveitadas para fazer uma infusão de potencial desinfetante e desengordurante! Para isto, coloque as cascas em um pote de vidro com tampa e encha com vinagre ou álcool, deixando descansar por no mínimo 1 semana. Este processo vai extrair para a solução uma parte dos óleos essenciais das cascas, que tem uma grande capacidade de remover gorduras, aumentando seu potencial de limpeza e adicionando um leve aroma cítrico à solução.

5. Lave roupas da forma correta para máxima eficiência

É muito difundido que para economizar água devemos sempre juntar o máximo de roupas possível para só então lavá-las, já que uma máquina de lavar gasta em média 60 litros de água a cada lavagem – é muita, muita água!
Isso é inquestionável, mas o máximo de roupas não é lotar a máquina até quase não caber mais água ali.

Para que as roupas fiquem realmente limpas é necessário que elas possam se movimentar dentro da máquina durante os ciclos de lavagem – esse movimento mecânico que é o equivalente a esfregá-las com as mãos. Máquina lotada de roupa e com pouca água não consegue nem uma boa movimentação delas, nem tem água suficiente para diluir toda a sujeira, saturando muito rápido e deixando as roupas ainda sujas mesmo após a lavagem.

Aqui em casa juntamos o máximo de roupas indicado no manual da máquina para que o ciclo de lavagem seja suficiente para deixá-las limpas. Para auxiliar a limpeza dá pra usar sabão natural, bicarbonato de sódio ou opções mais naturais, como esferas de cerâmica ou o sabão de soldado – frutos da árvore Sapindus saponaria, que naturalmente contém substâncias limpantes denominadas saponinas. É só cozinhar alguns frutos em 1L de água durante 30-45 min, até esbranquiçar a água, coar e usar na máquina.

6. Escolha vassouras e esponjas naturais

As conhecidas vassoura de piaçava, de palha caipira e a bucha vegetal são opções muito mais econômicas, eficientes e sustentáveis que as vassouras de plástico e esponjas.
Um pedaço pequeno de bucha vegetal é suficiente para ser utilizada na lavagem de louças ou limpeza da casa, e após o uso deve sempre ser limpa com sabão e água corrente (ou até mesmo fervida) e devidamente seca para que não acumule sujeira nem favoreça o desenvolvimento de microorganismos.

Vassoura com cerdas naturais tem longa duração e é 100% biodegradável – cerdas e cabo que serão consumidos por microorganismos 🙂

Manter a casa limpa também inclui cuidados cotidianos com a rotina, como evitar usar sapatos dentro de casa, não acumular louça ou roupas de dias e manter uma boa rotação de toalhas de rosto, banho e roupas de cama.
Roupas de crianças e bebês ou roupas íntimas não devem entrar em contato com produtos químicos de limpeza nem com cloro. Para esterilização, podem ser fervidas.

Uma rotina de limpeza com produtos naturais é mais rápida, simples e barata, além de menos tóxica pra sua família e pro meio ambiente.
É só abrir o armário e dar uma chance pro que você já tem em mãos!

Imagem: Catt Liu

Micro esferas esfoliantes, macro problemas ambientais

Enquanto pesquisava micro resíduos de plástico nos Grandes Lagos, nos Estados Unidos, Stiv Wilson achou algo inesperado: micro esferas de plástico que não eram fruto da degradação de pedaços maiores, eram eles mesmos pequenos poluentes em seu formato original. Intrigado com esses resíduos, Stiv começou a pesquisar sobre eles e descobriu algo surpreendente: estas bolinhas eram micro esferas esfoliantes de plástico utilizadas em produtos cosméticos de todo o tipo, desde cremes para o rosto e sabonetes até pasta de dentes e creme de barbear.

Em sua pesquisa descobriu que as micro esferas são feitas basicamente de polietileno, polipropileno, politereftalato de etileno (o PET), polimetil-metacrilato (o acrílico) ou nylon. São esferas leves e flutuantes, e de tão minúsculas os sistemas de tratamento de esgoto não conseguem filtrá-las, o que significa que saem direto do ralo das casas para poluir rios, mares e lagos em todo o mundo.

Fosse apenas este o problema já seria suficientemente ruim, uma vez que esse tipo de micro partícula interfere na troca gasosa e na luz que reflete dentro dos lagos e oceanos – mas a coisa piora.

Esses materiais plásticos absorvem facilmente substâncias chamadas poluentes orgânicos persistentes: ou seja, são compostos tóxicos estáveis, que não degradam no meio ambiente e têm a capacidade de se bioacumular nos seres vivos que os consomem. Assim, o camarão come micro-esferas cheias de poluentes orgânicos persistentes, o peixe come camarões contaminados, a gaivota come peixes contaminados e no final da cadeia todos comeram direta e indiretamente um monte de poluentes tóxicos contidos na vida marinha – isso quando não é o ser humano o consumidor final desta cadeia.

Apesar de pequenas, essas micro esferas estão em grandes quantidades nos produtos esfoliantes, chegando a constituir 10% de alguns deles (só pra ter uma ideia, os cientistas estimam que o Neutrogena Deep Clean possa ter até 360.000 micro esferas esfoliantes em apenas uma embalagem!). Quando jogadas nos oceanos se espalham facilmente através das correntes marítimas, sendo impossível despoluir com eficiência toda essa extensão.

Micro beads and other plastic particles taken from Lake Ontario near Dunkirk, N.Y.
Micro esferas esfoliantes e outras partículas plásticas retiradas do Lago Ontário, próximo a Dunkirk, N.Y., 03 dez 2013. (Imagem: Brendan Bannon/The New York Times)

Diante desse cenário surgiu o Beat the Microbead, uma campanha que visa banir essas micro esferas dos produtos cosméticos – o que precisaria contar com a ajuda das grandes indústrias que as produzem. Surpreendentemente elas não quiseram colaborar, uma vez que usar substitutos orgânicos diminuiria seus lucros, enquanto poluir e degradar lagos e oceanos, colocando em risco a já frágil vida marina que temos, não.

A pele humana não precisa de esfoliação diária. De fato, morar em grandes cidades com ar extremamente poluído pode levar a um acúmulo de resíduos de queima de combustíveis e outras toxinas pela nossa pele, que podem sair com água, sabão e leve exfoliação (ou podem simplesmente não sair 🙁 ). Como alternativas naturais para esfoliação existem sementes diversas que podem ser incorporadas a manteigas hidratantes caseiras (adicionar sementes de beldroegão a uma manteiga caseira de abacate, por exemplo) e o barato e eficiente café ou sal! Uma forma ainda mais fácil e delicada de esfoliar a pele são movimentos circulares bem leves com a bucha vegetal, durante o banho, sem fazer força extra que possa lesionar a pele. De preferência sem utilizar shampoos e sabonetes com lauril sulfato de sódio, uma substância que irrita e danifica a pele, além de deixá-la mais absorvente a todo tipo de partícula indesejável.

Se as grandes indústrias se recusam a abandonar as microesferas, que pelos menos a gente possa adotar novos hábitos e abandonar as indústrias.

Atualização: as microesferas esfoliantes foram proibidas nos Estados Unidos! Mais informações aqui. Por hora desconheço a repercussão aqui no Brasil.


Imagem de capa: Brendan Bannon/The New York Times, 2013