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Autocuidado para além do consumo

Por: Equipe Trópica em 05/03/2021

Autocuidado é um termo muito amplo e utilizado há muitos anos em diversas áreas, desde a saúde até a militância política. Hoje em dia ele está muito associado à ideia de bem estar – mas será que é só isso?

O boom do autocuidado durante a pandemia

Você já deve ter ouvido falar bastante sobre autocuidado – provavelmente nos últimos meses, né? Esse é o gráfico do histórico de pesquisas do termo no Google, em português, pra mostrar que você não está sozinha:

Nos últimos anos, e especialmente durante a pandemia, ficamos mais preocupados com nossa saúde física e mental, e passamos a procurar ativamente por ferramentas para nos manter saudáveis também.

De onde veio esse termo?

O termo original (self care) vem da língua inglesa e é bem antigo, com registros a partir de meados dos anos 1500! Na época era mais relacionado a uma noção de priorizar seus próprios interesses – um pouco diferente do que chamamos de autocuidado hoje em dia.

Como a língua é viva, auto cuidado teve diferentes conotações ao longo dos anos, ganhando força com os movimentos sociais nos anos 60 e 70, especialmente dentro do feminismo negro.
Autocuidado era praticado como uma forma de se preservar em um mundo hostil à sua existência, enquanto indivíduo e enquanto comunidade.

Tem inclusive uma frase famosa da Audre Lorde, em seu livro Burst of Light (1988), onde afirma que “cuidar de mim não é auto-indulgência, é auto-preservação, e isso é um ato político” – ou seja, a disputa pelo significado amplo e complexo do termo e suas práticas não é de hoje, né?
Com esse significado em mente, vamos avançar no tempo até as eleições americanas de 2016, quando Donald Trump foi eleito.

Autocuidado ressurge nos anos 2010

A ideia de autocuidado na verdade nunca desapareceu, e esteve muito aliada aos movimentos de autoajuda (self help), por exemplo.

Você lembra das eleições americanas de 2016? Pois bem, quando Trump foi declarado eleito aconteceu uma explosão no uso do termo self care lá no Twitter. Isso porque sabe aquele papo de que auto cuidado serve também pra se preservar em um mundo hostil à sua existência?

Pois bem, sabendo das propostas de Trump muitos americanos começaram a temer que o mundo ao redor passasse a ser ainda mais hostil à sua existência, e eis que ressurge com força a necessidade de se auto cuidar para seguir adiante.

Notou alguma semelhança com o que passamos por aqui nos últimos anos?

Mas o que isso tem a ver com consumo?

Tudo, e nada.
A essa altura você ja viu que autocuidado é uma prática ampla. Mas apesar dela não envolver necessariamente consumir algo, houve com o termo e a prática o que se define na Economia como comodificação.

De forma muito simplificada, comodificação é quando algo que a priori não é uma mercadoria passa a ser, e portanto pode ser comercializado.
No caso do auto cuidado, há produtos e serviços que podem ser vendidos associados a ele em determinados nichos, como no de bem estar, por exemplo

Apesar de não ter nada de errado em consumir algo que nos faça bem (seja uma massagem, um alimento ou um item de cuidado da pele), nós acreditamos que é importante lembrar que auto-cuidado não se resume a isso. Ele é uma ferramenta potente e multifacetada.

Esse é um assunto tão importante dentro da promoção da saúde que até a OMS tem uma definição a respeito!

Definição de autocuidado da
Organização Mundial da Saúde

A OMS define autocuidado como “a capacidade dos indivíduos, famílias e comunidades de promover a saúde, prevenir doenças, manter a saúde e lidar com doenças e deficiências com ou sem o apoio de um profissional de saúde”.

“O autocuidado é um conceito amplo que engloba também a higiene (coletiva e individual); nutrição (tipo e qualidade dos alimentos consumidos); estilo de vida (atividades esportivas, lazer etc.); fatores ambientais (condições de vida, hábitos sociais etc.); fatores socioeconômicos (nível de renda, crenças culturais etc.); e automedicação*.

Os princípios fundamentais para o autocuidado incluem aspectos do indivíduo (por exemplo, autossuficiência, capacitação, autonomia, responsabilidade pessoal, autoconfiança), bem como da comunidade maior (por exemplo, participação comunitária, envolvimento comunitário, empoderamento comunitário).”

*aqui automedicação tem um sentido amplo que também envolve práticas tradicionais – não é pra tomar remédio sem prescrição médica, hein?

Para pensar sobre nosso autocuidado

Essa definição linda da OMS é importante em vários sentidos, e pode nos ajudar inclusive a olhar melhor sobre nossas práticas de autocuidado. Como elas estão sendo feitas tanto no nível individual quanto coletivo?

Em meio ao período tão desafiador que estamos vivendo, aprender sobre as várias facetas do autocuidado é um lembrete importante pra gente se atentar à importâcia de cuidar da mente e do corpo pra poder se manter firme – mas também uma forma de nunca esquecermos que todas as pessoas devem ter acesso ao autocuidado enquanto direito, para além de ações individuais de consumo.


Imagem de capa: Madison Lavern / Unsplash

1 comentário em “Autocuidado para além do consumo

  1. Excelente reflexão sobre o autocuidado.
    Gostei muito da ideia de “se preservar em um mundo hostil à sua existência”.
    Beijo!

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