óleo de melaleuca conservante natural

Por que óleo de melaleuca não é um conservante natural

Nativo da Austrália, o óleo de melaleuca (ou tea tree) é extraído da árvore Melaleuca alternifolia e possui múltiplas aplicações terapêuticas por conta de suas propriedades antimicrobianas. A Trópica Botânica aproveita a ação anti-inflamatória e antisséptica desse óleo essencial em várias formulações, como o Serum Facial Balanceador; o óleo multiuso Andiroba & Copaíba e o Shampoo Sólido Castanha, Lavandim & Tea Tree. Com base nessas propriedades, é muito comum ouvir que o óleo essencial de melaleuca pode ser usado como conservante natural em cosméticos. Isto não está exatamente correto, devido a muitas razões.

É normal e saudável buscar alternativas naturais para fugir ao uso de substâncias nocivas, especialmente conservantes, como os parabenos. No entanto, conservação cosmética e alimentícia é assunto sério. Ele deve estar pautado por inúmeros testes microbiológicos de eficácia, que variam de produto para produto. Por isso queremos explicar melhor os motivos pelos quais o óleo de melaleuca não é eficaz o suficiente para ser empregado como conservante natural em cosméticos. Ao fazer isto, você pode se expor a um risco de contaminação sem perceber.

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Cristalino, de aroma herbáceo, fresco e terpênico, o óleo de melaleuca tem propriedade anti-inflamatória e antisséptica.

 

1. Cosméticos naturais de base aquosa são perfeitos para o desenvolvimento de microrganismos

Cosméticos naturais aquosos tem tudo aquilo que microrganismos precisam para se desenvolver. Umidade, temperatura ambiente e muitos nutrientes vegetais em seus ingredientes botânicos. Dependendo da composição, um cosmético vai possuir risco maior ou menor de contaminação e desenvolvimento. Por isso é necessário pensar seriamente em como evitar que fungos e bactérias proliferem no produto!

Para isso, muitos fatores devem ser considerados. Teor de água, pH, concentração de matéria-prima suscetível à degradação (como argilas, extratos botânicos e mel), interação entre as matérias-primas, dentre outros aspectos. Geralmente um cosmético natural apresenta um desafio maior de conservação, justamente por possuir tantos ingredientes naturais nutritivos e minimamente processados.

2. Ação antimicrobiana não quer dizer necessariamente conservante de amplo espectro

Muitos estudos já avaliaram o potencial antimicrobiano do óleo de melaleuca para certos fungos e bactérias, obtendo relativo sucesso. Porém, isto não pode ser automaticamente interpretado como “óleo de melaleuca é conservante”. Vários desses testes foram realizados in vitro, segundo metodologia específica, e não exatamente em cosméticos. Para conservar cosméticos, o crescimento de vários tipos de organismos (bactérias gram-positivas, bactérias gram-negativas e fungos) deve ser inibido durante um longo período de tempo. Para isso é necessário um conservante de amplo espectro testado e comprovado. Em muitos casos, é necessária a combinação entre conservantes para atingir o amplo espectro. 

É possível que óleos essenciais ou substâncias isoladas desses ingredientes possam ser utilizadas na fabricação de conservantes ou fármacos de ação antimicrobiana. Sabe-se que alguns óleos essenciais são eficazes em impulsionar a conservação quando associados a conservantes comuns. [1] Entretanto, quando usados sozinhos em muitos casos, não apresentaram resultados satisfatórios de conservação segundo os critérios esperados. [1]

Como coloca a farmacêutica especialista em cosméticos naturais Eliziane Pozzagnolo [2], para que certos óleos apresentem o efeito de conservante natural, sua concentração seria tão alta que tornaria o produto inadequado para uso. A maioria dos óleos essenciais tem concentrações dérmicas recomendadas bem baixas. Lembramos que alguns dos óleos essenciais mais eficazes no combate a microrganismos, como cravo, orégano e canela, apresentam risco de sensibilização e devem ser usados em concentrações mínimas na pele. No caso de cosméticos, essa preocupação é fundamental pois o uso é constante e diário!

3. A conservação de um produto deve ser comprovada com testes microbiológicos, num período longo de tempo

Como dissemos, a conservação deve ser testada e comprovada. Testes organolépticos (cheiro, visual) não são suficientes para esse fim! Ou seja, não é possível afirmar que um cosmético está conservado só porque não desenvolveu bolor. É necessário que o produto passe por testes microbiológicos precisos para que isso seja afirmado, geralmente conhecido por teste de desafio

De acordo com a Farmacopeia Europeia, um teste de desafio consiste em inocular um produto propositalmente com algumas espécies de microrganismos em concentrações determinadas, e avaliar de tempos em tempos se essa concentração diminui. As espécies usadas são Staphylococcus aureus, Pseudomonas aeruginosa, Escherichia coli (bactérias), Candida albicans e Aspergillus niger (fungos). As amostras são retiradas e avaliadas durante até 28 dias para atestar se os microrganismos foram realmente inibidos.

Cada produto é diferente e vai precisar de um teste de desafio! Até conservantes convencionais, não permitidos na cosmética natural, podem falhar nesses testes. Por isso, cosméticos naturais e orgânicos são ainda mais desafiadores no quesito conservação.

4. O ambiente caseiro de preparação não é controlado o suficiente para minimizar a contaminação

A fabricação de cosméticos deve seguir as Boas Práticas de Fabricação (BPF) estabelecidas por norma. O ambiente deve ser controlado para minimizar todo tipo de contaminação. Isso inclui higiene adequada do local, equipamento de proteção individual (jaleco, touca, máscara, luvas etc), instalações adequadas, equipamentos de material inerte (como inox), sistema de ventilação e exaustão, dentre outras exigências. Provavelmente sua casa não está preparada em todos esses critérios, então seu cosmético aquoso artesanal está muito mais suscetível à contaminação do que se fosse feito num laboratório preparado para esse fim!

Ou seja, nāo dá pra dizer que o óleo de melaleuca vai ser um conservante natural apenas por possuir ação bactericida ou fungicida. Também não podemos afirmar isto sobre qualquer óleo essencial.
Sua ação como conservante cosmético de largo espectro não está comprovada nas concentrações adequadas. Para que funcionassem, teriam que ser usados em concentrações muito altas. Além disso, o teste de conservação deve ser feito para cada formulação diferente. Estudar profundamente as ações de cada óleo essencial e suas finalidades é sempre a melhor forma de garantir sua segurança e eficácia ❤️


1 – Dreger, M.; Wielgus, K. Application of essential oils as natural cosmetic preservatives. In: Herba Polonica, Vol. 59, n. 4, 2013.

2 – Cosmetologia Orgânica, Q&A Conservantes, maio/2007, disponível em: http://www.cosmetologiaorganica.com.br/conservantes/


Imagens:

Capa: JulieAnne van der Lek, Creative Commons.
Texto: Acervo Trópica Botânica, 2017

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Óleo de coco: benefícios e mitos para pele e cabelos

O óleo de coco é sem dúvida um dos óleos vegetais mais popularizados para o uso cosmético e culinário, devido a sua grande disponibilidade, suas múltiplas aplicações e o recente boom por qual passou sua produção e comercialização.
A Trópica preparou este guia explicando o que é verdade e o que é mito sobre a utilização deste ingrediente na pele e nos cabelos, para que você possa utilizá-lo da melhor maneira e aproveitar todos os seus benefícios de forma responsável e consciente!

De onde vem o óleo de coco?

O óleo de coco é extraído da palmeira Cocos nucifera, originária do Sudeste asiático, onde também se dá grande parte da produção mundial. É o popular coco-da-praia ou coco-da-Bahia, o mesmo aproveitado pela sua água refrescante e altamente nutritiva. Geralmente o óleo de coco é derivado da “carne” seca do coco, também denominada copra, mas existem outros processos que isolam esta gordura diretamente do leite de coco, gerando um produto que retém uma fração maior de seus compostos benéficos [1].

O óleo de coco pode ser refinado para retirar seu aroma característico, mas esse processo também retira componentes valiosos chamados de insaponificáveis. Também vale notar que, às vezes, o óleo de coco comercializado deriva do coco da palmeira Elaeis guineensis, a mesma da qual é produzido o óleo de dendê ou palma. Neste caso, o correto é ser chamado de palmiste, que possui uma composição similar em triglicerídeos mas não contém exatamente os mesmos bioativos do coco-da-praia. De forma geral, recomendamos sempre o óleo de coco extravirgem de prensagem a frio ou extraído do leite, de preferência de agricultura orgânica.

 

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Óleo de coco prensado a frio, preserva o aroma natural que remete ao coco seco ralado.

 

Composição do óleo de coco

Como qualquer óleo vegetal, ele é composto majoritariamente por triglicerídeos, ou seja, trios de ácidos graxos ligados a uma molécula de glicerina. O óleo de coco se destaca pela grande fração de ácidos graxos saturados de cadeia média, conferindo-lhe uma grande resistência à oxidação, o que faz dele um dos melhores para preparar alimentos fritos e refogados. Normalmente apresenta coloração clara, com odor característico do fruto, e ponto de fusão ao redor de 25°C, derretendo rapidamente em contato com a pele.

Composição média de ácidos graxos em % (variável de acordo com origem, cultivo e qualidade) [1, 2, 3]

Cáprico (C8:0) – 5,8 – 8,8 / Caprílico (C10:0) – 4,8 – 6,5
Láurico (C12:0) – 47 – 51 / Mirístico (C14:0) – 16,8 – 21,8
Palmítico (C16:0) – 6,1 – 9,5 / Esteárico (C18:0) – 2,8 – 3,5
Oleico (C18:1) – 5,2 – 6,5 / Linoleico (C18:2) – 0,9 – 1,7 %

Além de ser especial pela concentração de ácidos graxos de cadeia média, o óleo de coco extra virgem também pode conter uma fração de insaponificáveis fenólicos, conferindo-lhe potencial antioxidante. [1]

Benefícios para a pele

O óleo de coco possui uma ótima absorção e grande capacidade de retenção de umidade nas camadas superficiais da pele. Por isto é versátil, multifuncional e pode ser aplicado em praticamente todas as áreas do corpo.
Para amolecer o óleo de coco nos dias e locais mais frios (aqui em Curitiba está quase sempre sólido!), é só aquecê-lo levemente em banho-maria ou retirar uma porção com uma colher e derreter na palma das mãos.

  • Rosto: Hidratante diário, pode ser aplicado em pequena quantidade diretamente na pele do rosto e também utilizado como demaquilante e óleo de limpeza facial, com algodão. Ajuda a minimizar o ressecamento e seus sintomas na pele, como feridas e descamação. Nos lábios, pode servir como leve hidratante.
    O óleo de coco pode não combinar com algumas pessoas de peles sensíveis ou oleosas/acneicas, embora em muitos casos seja aplicado com sucesso nesses tipos de pele. O ideal é testar e ver como sua pele responde.
  • Corpo: Pode ser usado como um hidratante em todas as áreas do corpo, do pescoço aos pés, tanto com a pele seca quanto úmida. Devido a sua capacidade emoliente, vai reter a umidade na pele e auxiliar a manter a firmeza e a elasticidade, além de minimizar marcas e ajudar na cicatrização.

Benefícios para os cabelos

Devido a sua composição química, o óleo de coco tem um grande capacidade de penetração tanto nos fios quanto no couro cabeludo. Por isso, pode ser usado de várias formas para cuidar dos cabelos.

  • Umectação: Antes da lavagem, aplique uma quantidade generosa nos fios e no couro, deixando agir por no mínimo 1 hora. Fazer este tratamento semanalmente ajuda a recuperar a elasticidade, maciez e força dos fios.
  • Leave-In: O óleo de coco pode ser usado para finalizar o comprimento e as pontas, trazendo brilho e hidratação após a lavagem. Além disso, é ótimo para fazer o controle de frizz nos fios.
  • Massagens: Como é leve e penetra facilmente a pele, o óleo de coco pode ser usado em massagens capilares estimulantes da circulação, inclusive como óleo carreador para óleos essenciais fortalecedores do crescimento.

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Principais mitos

A versatilidade do óleo de coco é enorme e sua popularidade também, mas nem tudo que se fala sobre ele é verdade! Reunimos aqui os principais mitos que já vimos sobre o óleo de coco para ajudar a evitar aplicações em funções nas quais ele não tem eficácia comprovada:

Mito 1 – Protetor Solar: Um dos maiores mitos ligados ao óleo de coco é que funciona como protetor solar. Já discutimos esse assunto em profundidade no blog, com base em estudos científicos e testes laboratoriais. A conclusão é: o óleo de coco tem FPS (fator de proteção solar) baixíssimo e variável de acordo com o lote (de 0 a 8); não protege contra raios UVA; e os lotes comercializados não tiveram seu FPS realmente testado e avaliado in vitro e in vivo.
Ou seja, óleo de coco não bloqueia os raios solares com eficácia! Qualquer pessoa que queira afirmar o contrário deve submeter o óleo a testes laboratoriais e comprovar seu valor de FPS, ou a afirmação não possui validade alguma.

Mito 2 – Antibiótico Milagroso/ConservanteÉ verdade que a concentração de ácido cáprico, caprílico e láurico (ácidos graxos de cadeia média) do óleo de coco lhe confere certas propriedades bactericidas e fungicidas, e existem estudos avaliando essa capacidade de acordo com algumas espécies de fungos e bactérias. [4, 5, 6] O óleo de coco tem grande potencial para melhorar nossa saúde, mas isso não significa que podemos generalizar este efeito e utilizá-lo indiscriminadamente em casa como se fosse funcionar em todos os casos de infecção.
Essa revisão bibliográfica [6] sobre seus efeitos antimicrobianos na pele conclui que o óleo de coco “pode ser uma opção razoável para pacientes com infecções de pele leves a moderadas, especialmente acne causada por P. acnes, dermatite atópica polimicrobiana, impetigo ou feridas infeccionadas. Estudos randômicos controlados adicionais são necessários para solidificar o posto terapêutico do C. nucifera como tratamento para infecções de pele.”
Ou seja, o óleo possui potencial para funcionar em alguns casos, mas é necessário diagnosticar de que infecção se trata, verificar se o óleo de coco seria eficaz, e fazer o tratamento com acompanhamento de um profissional médico capacitado e bem informado sobre seus efeitos e a infecção em questão. Ele não pode ser aplicado como remédio caseiro infalível por qualquer pessoa, especialmente internamente, sob risco de atrasar ou prejudicar o tratamento correto e piorar o quadro infeccioso.
Da mesma forma, ele não pode ser considerado conservante! Essa é uma constatação que requer testes químicos e biológicos para ser comprovada, e sua concentração de ácidos graxos de cadeia média não é suficiente para conferir ação contra um amplo espectro de microrganismos em produtos alimentícios e cosméticos.

O óleo de coco é um ingrediente fenomenal, que pode ser aplicado livremente em nossa pele e cabelos. Escolha um óleo extravirgem, de preferência orgânico, e evite usá-lo com finalidades não comprovadas para não se expor a riscos desnecessários 🙂


1 – Marina, A. M., et al. “Chemical properties of virgin coconut oil.” Journal of the American Oil Chemists’ Society 86.4 (2009): 301-307.

2 – Bezard, J., M. Bugaut, and G. Clement. “Triglyceride composition of coconut oil.” Journal of the American Oil Chemists’ Society 48.3 (1971): 134-139.

3 – Bhatnagar, A. S., et al. “Fatty acid composition, oxidative stability, and radical scavenging activity of vegetable oil blends with coconut oil.” Journal of the American Oil Chemists’ Society 86.10 (2009): 991-999.

4 – Ogbolu, David Olusoga, et al. “In vitro antimicrobial properties of coconut oil on Candida species in Ibadan, Nigeria.” Journal of medicinal food 10.2 (2007): 384-387.

5 – Verallo-Rowell, Vermén M., Kristine M. Dillague, and Bertha S. Syah-Tjundawan. “Novel antibacterial and emollient effects of coconut and virgin olive oils in adult atopic dermatitis.” Dermatitis 19.6 (2008): 308-315.

6 – Lindsey K. Elmore et al. “Treatment of Dermal Infections With Topical Coconut Oil: A review of efficacy and safety of Cocos nucifera L. in treating skin infections.” Natural Medicine Journal, May 2014 Vol. 6 Issue 5.


Imagens: Acervo Trópica Botânica, Max Lakutin, Eddie Kopp

Como usar shampoo sólido natural na rotina capilar

Shampoos sólidos tem se tornado cada vez mais populares como escolha natural de limpeza dos cabelos, mas ainda existem muitas dúvidas sobre como utilizá-los e como se dá a transição. Entender como atuam é importante para escolher os produtos mais adequados para seus fios. Então, o que é um shampoo sólido?

Shampoos sólidos podem ser formulados de muitas formas!

Shampoo sólido é um produto em barra para higienizar o couro e os fios, podendo trazer outros benefícios associados, como brilho e hidratação. Este termo se refere mais especificamente ao formato de apresentação.

Por isto, é importante diferenciar dois tipos principais de formulação: 1) aquelas obtidas diretamente pela saponificação de óleos e gorduras e 2) aquelas que incorporam surfactantes previamente sintetizados, que podem ser de fontes naturais ou não, como lauril sulfato de sódio ou cocoamidopropil betaína (tecnicamente sabão também é um surfactante, mas aqui fazemos essa diferenciação devido ao modo de produção).

Os shampoos sólidos naturais, como os da Trópica, são geralmente aqueles formulados somente a partir da saponificação de gorduras e óleos, sendo compostos de sais de ácidos graxos (o sabão efetivamente, que também tem ação surfactante e arrasta a sujeira durante o banho) e glicerina (umectante e condicionante) obtida naturalmente neste processo. Eles podem utilizar bases previamente saponificadas (geralmente de coco), ou saponificar diretamente no processo – a quente ou a frio – a mistura desejada de óleos e manteigas.

Então, a primeira coisa a entender no seu shampoo sólido é: ele tem outros surfactantes ou somente óleos e gorduras saponificados? Se tem outros compostos, ele é potencialmente irritante para a pele e nocivo ao ambiente?

Shampoos de saponificação natural tem características próprias

A primeira coisa a se considerar quando entramos nesse assunto é o pH dos shampoos sólidos naturais, que sempre será alcalino, geralmente variando de 8 a 10. Considerando que o pH ideal dos fios é 5,5, um produto de pH alcalino pode elevar a energia eletrostática nos cabelos, aumentando a repulsão e fricção entre os fios. Muitas pessoas utilizam shampoos sólidos e não sentem essa alteração. Outras, no entanto, são adeptas do enxague com vinagre (de maçã e orgânico) após a lavagem com o shampoo natural – o pH ácido dessa solução re-equilibra a estática dos fios e os deixa mais soltos e leves. Condicionadores também pode ser usados para este fim, e ressaltamos a escolha por formulações naturais sem silicones e parafinas, pois estes compostos não são retirados com shampoo natural.

Para o enxágue com vinagre de maçã orgânico:
Dilua 1 colher de sopa (15 mL) de vinagre de maçã em 1L de água filtrada e finalize os fios após retirar todo o shampoo. Essa pequena diluição é suficiente para um pH em torno de 3 que ajudará a balancear a estática dos fios.

Shampoos naturais não costumam levar agentes catiônicos ou sequestrantes em sua formulação. Por isso, sua capacidade de limpeza pode ser afetada em casos de água dura, ou seja, água com grande concentração de íons cálcio e magnésio. Uma água que possui 100mg/L de CaCO3 (carbonato de cálcio) já pode ser considera meio-dura. Procure saber com o departamento de águas da sua cidade qual é a situação. Nesses casos pode ser necessário reaplicar o produto, esfregar bem pra produzir a espuma desejada ou optar por formulações específicas.

Shampoos sólidos são fáceis de aplicar, tem ótima durabilidade
e podem se adaptar a vários tipos de fios

como utilizar shampoo sólido

Estas são orientações gerais e com o tempo você encontrará um método que se adapta melhor a seus cabelos. Não há problemas em esfregar a barra diretamente, ou lavar mais as raízes ou o comprimento. Tudo depende de como seu cabelo responde e como você se sente confortável.

É importante optar por produtos que também sejam adequados para seus fios. Geralmente a formulação de ingredientes nos shampoos é feita pensando em auxiliar no tratamento de condições específicas, ou promover a regulação ou a hidratação necessárias para cada tipo de fio. Em caso de dúvidas, contate as pessoas/empresa que fazem seu shampoo e busque saber qual deles se adapta melhor a seus cabelos.

Às vezes, a opção pelos produtos naturais requer um período de transição

Cabelos diferentes podem responder de maneiras distintas aos produtos aplicados. Estes são aspectos individuais e muito variáveis de pessoa pra pessoa. Ou seja, um shampoo pode ser ótimo pra você desde a primeira lavagem, enquanto em outras pessoas causa a sensação de ressecamento ou de fios pesados. É fundamental compreender que existe um período de adaptação, que para algumas pessoas chega a durar mais de 1 mês, até que possamos avaliar de fato como o cabelo está respondendo – para isso é necessária paciência 🙂
Finalizando, aqui vão duas dicas para auxiliar a resolver algumas reações mais comuns durante a adaptação aos shampoos sólidos:

Fios secos após a lavagem: Pode ser resolvido optando por uma formulação mais hidratante e recomendada para esses casos. A umectação com óleos vegetais também é bem eficaz, ou utilizar algum óleo leve como leave-in após a lavagem, que sele a umidade nos fios. Condicionadores naturais também ajudam.

Fios pesados após a lavagem: Pode ser causado pela estática, excesso de oleosidade (em processo de regulação e adaptação ao shampoo) ou até resíduos de oleosidade + shampoo que não foram completamente removidos durante o enxague (como no caso da água dura, que citamos lá em cima). Neste caso, pode ser necessário escolher um shampoo ligeiramente mais adstringente. Também é possível usar o shampoo em maior quantidade nas raízes, enquanto usa a própria espuma da lavagem no comprimento.

E, claro, em ambos os casos, recomendamos a realização do enxague com vinagre para promover o equilíbrio estático dos fios 🙂


Imagens: Trópica Botânica

6 opções para limpar a casa com ingredientes naturais

Existe ainda bastante insegurança em relação a manter uma rotina de limpeza da casa com produtos naturais, já que à primeira vista é comum acreditar que eles não limpariam tão bem assim quanto os convencionais. Essa preocupação leva geralmente a uma mistura de grandes concentrações de cloro, saponáceos, detergentes e limpadores multiuso na esperança de que a quantidade seja garantia de casa limpa, o que muitas vezes não é acompanhado de cuidados como o uso de máscaras e luvas em seu manuseio.

Cada um desses produtos tem listados dezenas de ingredientes tóxicos sobre os quais não se tem muito conhecimento difundido – nem sobre os efeitos deles no nosso corpo a curto e longo prazo, nem sobre seu impacto no meio ambiente – onde irão parar depois de serem escorridos pelo ralo.
A EWG lançou em 2016 uma versão recente sobre a pesquisa que fizeram sobre produtos de limpeza da casa e os dados são assustadores: quase 3/4 deles contém ingredientes com efeitos preocupantes no trato respiratório, mais de 1/4 contém ingredientes ou impurezas ligados ao câncer e mais de 10% são corrosivos a ponto de causar danos permanentes aos olhos e à pele. Ainda, 60% deles apresentam riscos de médio a grave ao meio ambiente, já que o saneamento básico da água não inclui tratamento para quebra desses compostos.

A boa notícia é que é possível limpar a casa sem se intoxicar e minimizando o impacto ambiental daquilo que vai ser o subproduto da sua faxina 🙂
Segue uma lista de dicas de produtos que você provavelmente já tem em casa mas ainda não sabia que podia usar com segurança e eficiência na limpeza!

1. Use um verdadeiro sabão natural

Prefira sempre sabões em barra naturais, como os feito de óleo de coco ou reuso de óleo culinário. Não basta estar escrito “sabão de coco”, tem que ler os ingredientes e certificar de que são óleos saponificados, também indicados como sais de sódio ou potássio (sodium palmate, sodium olivate, etc). Pode ser utilizado para lavar louça, roupa, banheiro, chão e até mesmo bem diluído em água para passar pano em móveis de madeira.

Detergentes e sabões em pó contém lauril sulfato de sódio, um surfactante que faz mal pra gente e pros ecossistemas onde ele é descartado. Muito poderoso, o lauril sulfato de sódio irrita e pele e apresenta efeitos tóxicos para a vida marinha, afetando também a tensão superficial da água nos ecossistemas.
Todo sabão é tensoativo, ou seja, tem a capacidade de diminuir a tensão superficial da água e ligá-la com outro líquido que está separado dela – no caso, o óleo, sujeira, gorduras etc.
Até mesmo os sabões naturais, apesar de biodegradáveis, são tensoativos – o que significa que devem ser usados com consciência, cautela e parcimônia para que tenham um impacto ambiental reduzido.

2. Descubra o potencial do bicarbonato de sódio

O bicarbonato de sódio até ocorre em alguns lugares de forma natural, mas o que utilizamos em larga escala no Brasil é geralmente sintético. Ou seja, esse não é um ingrediente 100% natural, mas é imensamente menos agressivo que os produtos de limpeza convencionais!
Ótima indicação para lavar roupas (1/3 de copo para a lavagem é suficiente), fogão (é um desengordurante poderoso, muito melhor que os saponáceos), pia, banheiros e para aplicar em locais muito úmidos que tendem a desenvolver mofo, como armários e estantes de livros.

É comum recomendar a mistura com o vinagre, mas do ponto de vista químico isto não aumenta sua limpeza. A mistura desses dois ingredientes caracteriza uma reação química de neutralização ácido-base. Então, quando você combina bicarbonato e vinagre, eles se “anulam” e viram gás carbônico (caracterizando as bolhas observadas na reação), água e acetato de sódio (um sal) diluído, ou seja: uma solução aquosa com baixa concentração de sais. Tem algum problema nisso? Não, mas também não há benefícios que justifiquem a mistura, que é inclusive mais fraca pra limpeza que o ingrediente isolado.
Portanto, uso-os separadamente para ter seu potencial completo!

(Devido a seu pH alcalino, o bicarbonato pode causar sensibilidade em algumas peles. Manuseie sempre com luvas para minimizar este risco.)

3. Aproveite a versatilidade do vinagre e do álcool

Coringas multiuso, álcool ou vinagre (preferencialmente de álcool ou de maçã) têm ótima ação limpante – e o vinagre ainda pode atuar como um eficiente amaciante de roupas.
São muito indicados para desinfetar bancadas, limpar armários, paredes, azulejos e até mesmo espaços de animais domésticos, como camas e caixinhas de areia (nestes casos, seque o utensílio antes de devolver aos animais).
Se quiser um aroma agradável e potencializar a ação de limpeza, adicione algumas gotas de óleo essencial (10 gotas a cada 100 mL, com agitação antes de aplicar) ou deixe ervas em infusão, como lavanda, alecrim ou capim santo.

álcool bucha vegetal bicarbonato sódio
Solução de álcool com óleo essencial de eucalipto, bicarbonato de sódio e bucha vegetal.

4. Reaproveite as cascas de frutas cítricas

Cascas de limão, laranja ou tangerina contém óleo essencial e podem ser aproveitadas para fazer uma infusão de potencial desinfetante e desengordurante! Para isto, coloque as cascas em um pote de vidro com tampa e encha com vinagre ou álcool, deixando descansar por no mínimo 1 semana. Este processo vai extrair para a solução uma parte dos óleos essenciais das cascas, que tem uma grande capacidade de remover gorduras, aumentando seu potencial de limpeza e adicionando um leve aroma cítrico à solução.

5. Lave roupas da forma correta para máxima eficiência

É muito difundido que para economizar água devemos sempre juntar o máximo de roupas possível para só então lavá-las, já que uma máquina de lavar gasta em média 60 litros de água a cada lavagem – é muita, muita água!
Isso é inquestionável, mas o máximo de roupas não é lotar a máquina até quase não caber mais água ali.

Para que as roupas fiquem realmente limpas é necessário que elas possam se movimentar dentro da máquina durante os ciclos de lavagem – esse movimento mecânico que é o equivalente a esfregá-las com as mãos. Máquina lotada de roupa e com pouca água não consegue nem uma boa movimentação delas, nem tem água suficiente para diluir toda a sujeira, saturando muito rápido e deixando as roupas ainda sujas mesmo após a lavagem.

Aqui em casa juntamos o máximo de roupas indicado no manual da máquina para que o ciclo de lavagem seja suficiente para deixá-las limpas. Para auxiliar a limpeza dá pra usar sabão natural, bicarbonato de sódio ou opções mais naturais, como esferas de cerâmica ou o sabão de soldado – frutos da árvore Sapindus saponaria, que naturalmente contém substâncias limpantes denominadas saponinas. É só cozinhar alguns frutos em 1L de água durante 30-45 min, até esbranquiçar a água, coar e usar na máquina.

6. Escolha vassouras e esponjas naturais

As conhecidas vassoura de piaçava, de palha caipira e a bucha vegetal são opções muito mais econômicas, eficientes e sustentáveis que as vassouras de plástico e esponjas.
Um pedaço pequeno de bucha vegetal é suficiente para ser utilizada na lavagem de louças ou limpeza da casa, e após o uso deve sempre ser limpa com sabão e água corrente (ou até mesmo fervida) e devidamente seca para que não acumule sujeira nem favoreça o desenvolvimento de microorganismos.

Vassoura com cerdas naturais tem longa duração e é 100% biodegradável – cerdas e cabo que serão consumidos por microorganismos 🙂

Manter a casa limpa também inclui cuidados cotidianos com a rotina, como evitar usar sapatos dentro de casa, não acumular louça ou roupas de dias e manter uma boa rotação de toalhas de rosto, banho e roupas de cama.
Roupas de crianças e bebês ou roupas íntimas não devem entrar em contato com produtos químicos de limpeza nem com cloro. Para esterilização, podem ser fervidas.

Uma rotina de limpeza com produtos naturais é mais rápida, simples e barata, além de menos tóxica pra sua família e pro meio ambiente.
É só abrir o armário e dar uma chance pro que você já tem em mãos!

Imagem: Catt Liu

Os problemas do protetor artesanal com óxido de zinco

A cosmética artesanal trouxe a oportunidade de fazer produtos em casa com ingredientes simples, eficientes e sem contaminantes tóxicos. No caso dos protetores solares não é diferente, já que há muitos riscos associados aos filtros químicos convencionais, e precisamos pensar em alternativas mais seguras. [1] Muitas pessoas optam por fazem cosméticos artesanalmente para uso pessoal, e sempre há a dúvida: posso fazer um protetor artesanal? Nossa resposta é: melhor não. 

Já falamos aqui sobre o uso de óleos e manteigas vegetais como protetor solar. Mostramos que seus valores de FPS são muito baixos e variáveis, e não existem análises suficientes que comprovem sua eficácia. Adicionar óxido de zinco a estas gorduras vegetais e misturar com equipamentos comuns de cozinha não é garantia de proteção.

Analisando formulações naturais como as da Badger pode parecer relativamente fácil alcançar o mesmo resultado por meios artesanais – algumas têm somente ingredientes como óxido de zinco (ZnO) + óleos, manteigas e ceras vegetais. A maioria das receitas caseiras segue esse padrão e pode incluir até uma correlação entre óxido de zinco e FPS.

Infelizmente não é bem assim. Não é seguro formular um protetor solar sem acesso a testes laboratoriais e equipamento adequado.

1) Não é fácil incorporar o óxido de zinco de forma homogênea

 

Neste post [2] da Amanda Foxon-Hill, cosmetóloga e química australiana com 18 anos de experiência, a autora também recomenda que você não faça seu protetor solar. Para isto ela descreve seu caminho pessoal na formulação com óxido de zinco. Uma das principais questões é: misturar o óxido de zinco de forma homogênea a uma base e garantir que ele fique uniformemente disperso é complicado.

Isto acontece por causa da natureza química desta partícula. Ela é insolúvel e fortemente polarizada, como se fosse um imã, fazendo com que atraiam umas às outras e formem aglomerados [2]. Assim, há uma dispersão desigual do ingrediente na fórmula, deixando algumas partes com muito óxido de zinco e outras menos. Se isto ocorre, a proteção e a cobertura também será desigual. Em vez de um filme homogêneo sobre a pele, o protetor será composto por “blocos” de óxido de zinco e buracos sem proteção. Não é possível verificar isto a olho nu. Ou seja, pode parecer que está tudo ótimo quando na verdade existem várias falhas na proteção.

badly clumped zinc sunscreen
Dispersão desigual de ZnO vista em microscópio. Créditos: Amanda Foxon-Hill [2]
Em uma entrevista para a Allure [3], a química cosmetóloga Ni’Kita Wilson diz:
Eu preciso de um equipamento de alta pressão chamado homogeneizador para quebrar as partículas de óxido de zinco e dióxido de titânio e distribui-las uniformemente por uma fórmulaDe nenhuma forma misturar com uma colher ou um mixer vai chegar perto disso, então você vai ter áreas inteiras da pele expostas aos raios UV”. Ela ainda diz que é difícil dispersar o óxido de zinco em óleo de coco por causa de sua consistência, mesmo com a tecnologia que ela possui. Ou seja, mesmo que você tente e pareça estar homogêneo, seu mixer ou batedeira não dão conta de dispersar o óxido de zinco de uma forma eficaz.

2) A confirmação do FPS requer testes in vitro e em humanos

 

A Amanda [2] também fala da grande quantidade de testes a que submeteu seus protótipos e produtos aprovados para comercialização. Ela descreve situações em que produtos que ela acreditava serem FPS 35 na verdade mostraram um valor de 12. Isto demandou novas técnicas e uma série ainda maior de testes, que de forma geral são bem custosos.

Além de avaliações in vitro, os produtos devem passar por testes em humanos (de 10 a 20 voluntários aqui no Brasil) para garantir que possuem a performance desejada.  Este infográfico [4] da Associação de Indústrias Cosméticas do Reino Unido coloca de forma muito didática as etapas do processo de análise do FPS até que o produto seja aprovado.
Mudanças na formulação ou nas técnicas de produção podem afetar o FPS resultante, exigindo novos testes toda vez. Existe um grande balanço físico-químico na formulação que não pode ser previsto em termos de FPS nem por químicos cosmetólogos experientes. A comprovação da proteção só ocorre com testes que mostram sua eficácia! Não é possível afirmar que “tantos gramas de óxido de zinco equivalem a tal FPS”.

Lembrando que não ficar com a pele vermelha quando exposta ao sol usando filtro solar caseiro não é parâmetro algum de proteção! Pele bronzeada ou até mesmo sem alteração de tonalidade também pode significar dano ao DNA causado pela radiação solar direta ou indiretamente. Isto não é verificável a olho nu ou sensorialmente [5] [6].

3) Formular um filtro solar requer conhecimento físico-químico dos ingredientes e suas interações

 

Este motivo pode parecer óbvio, afinal formular qualquer cosmético requer conhecimento sobre seus ingredientes e interações. O que queremos reforçar é que a questão dos protetores solares é muito mais séria. Ela demanda conhecimento técnico especializado em sua elaboração. Uma formulação errada passa falsa sensação de segurança e leva as pessoas a se exporem mais à radiação solar, confiando que estão protegidas. A gravidade da questão a que se relacionam filtros solares os tornam produtos muito regulamentados. Nos Estados Unidos a FDA os avalia como medicamentos, enquanto no Brasil são considerados cosméticos de grau II pela Anvisa.

O FPS e o comportamento dos bloqueadores minerais pode ser afetado por inúmeros aspectos da fórmula e de sua preparação, que incluem pH, polaridade dos outros ingredientes, quantidade de óxido de zinco, sua granulometria e tratamento de superfície, dentre outros. [7] Quem desenvolve o protetor deve estar consciente de todos estes fatores e quais são as interações físico-químicas entre os ingredientes. Para isto é necessário, além de conhecimento em cosmetologia e dermatologia, equipamentos e local de trabalho adequados – ou seja, deve envolver trabalho especializado. Para elaborar seus produtos, a Amanda fala que sempre esteve acompanhada de seu homogeneizador, agitador mecânico, testes de estabilidade, microscópio e um enorme investimento em testes, e que mesmo com a experiência e os equipamentos adequados é fácil cometer erros! Até mesmo grandes empresas os cometem, como aconteceu com os protetores da Honest, da atriz Jessica Alba [8].

Ou seja, para fazer um protetor solar adequado e seguro com óxido de zinco, é necessário: conhecimento químico e experiência em cosmetologia; equipamentos capazes de dispersar adequadamente o ingrediente; local adequado de trabalho; acesso a testes in vitro e in vivo que comprovem seu FPS.

Por isto utilize protetores solares minerais de atuação comprovada segundo as orientações do fabricante.
É possível encontrar em outros países protetores eficazes orgânicos completamente à base de óxido de zinco, mas infelizmente no Brasil este ramo caminha a passos bem lentos. Praticamente não há protetores de base natural e pouquíssimos elaborados com bloqueadores minerais. A Cristal Muniz, do blog Um Ano Sem Lixo, fez um post minucioso falando sobre proteção solar e lá ela recomenda o protetor mineral da Adcos, de FPS 50. [Edit] A Nyle do Lookaholic também compilou os produtos disponíveis no mercado brasileiro que tem composições menos nocivas segundo a avaliação do EWG, vale a pena dar uma olhada.

Esperamos no futuro poder dar mais indicações por aqui, mas enquanto isso fica como referência de fórmulas a lista dos melhores protetores de 2016 nos EUA. [9]


1- Environmental Working Group. The trouble with sunscreen chemicals, em: http://www.ewg.org/sunscreen/report/the-trouble-with-sunscreen-chemicals/

2 – Amanda Foxon Hill. The trouble with making your own sunscreen. Realize Beauty, 2012, revisado em 2015, em: https://realizebeauty.wordpress.com/2012/12/30/the-trouble-with-making-your-own-sunscreen/
Todas as referências e imagens reproduzidas com autorização da autora.

3 – Allure. The Truth About Homemade Sunscreen Recipes: A Beauty Don’t, 2013, em: http://www.allure.com/story/homemade-sunscreens-dont-work

4 – The Cosmetic, Toiletry and Perfumery Association. How sunscreens are developed, em: http://www.thefactsabout.co.uk/document.aspx?fileid=2346

5 – Ryan Hopkins. How Ultraviolet Light Reacts in Skin Cells. Nature, 2015, em: http://www.nature.com/scitable/blog/scibytes/how_ultraviolet_light_reacts_in

6 – R. Greinert, B. Volkmer, S. Henning, E. W. Breitbart, K. O. Greulich, M. C. Cardoso and Alexander Rapp. UVA-induced DNA double-strand breaks result from the repair of clustered oxidative DNA damages, 2012, em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3488256/

7 – BASF, Creations Newsletter. Formulating with zinc oxide, 2015, em: http://creationsnewsletter.com/issue3/3.aspx

8 – David Kroll. The Failure Of Jessica Alba’s Honest Company Sunscreen Explained. Forbes, 2015, em: http://www.forbes.com/sites/davidkroll/2015/08/03/the-failure-of-jessica-albas-honest-company-sunscreen-explained/#24d082c1796e

9 – Environmental Working Group. EWG’s Guide to Sunscreens, 2016, em: http://www.ewg.org/sunscreen/best-sunscreens/best-beach-sport-sunscreens/


Imagem de capa: David Flores, CC BY 2.0

Por que não usar óleo de coco como protetor solar

É recorrente que na Trópica a gente receba diversos pedidos de indicação de protetor solar natural, e é claro que  com a chegada do verão esse tipo de questão fica ainda mais latente. Muitas vezes essas dúvidas surgem em um formato já direcionado: qual óleo vegetal vocês indicam como filtro solar?
Nossa resposta pode soar um tanto desanimadora, mas é a mais científica que poderíamos dar: nenhum.

Pela internet vemos informações variadas sobre a utilização de óleos e manteigas vegetais para este fim, por vezes com seus supostos FPS, sendo os óleos mais comuns os de coco, karitê, café verde, e recentemente nos blogs americanos e europeus o de framboesa.
Orientações como essas são tentadoras por sua praticidade e eficácia, afinal qual entusiasta da cosmética natural e faça-você-mesma não gostaria de se ver protegida do sol apenas com ingredientes naturais e fáceis de encontrar? O problema é que essas afirmações dificilmente estão embasadas por evidências que comprovem o que está sendo dito, e criam uma falsa sensação de segurança muito perigosa, pois pessoas se sentem protegidas com óleos vegetais e acabam se expondo ao sol por tempo demais e sem a devida precaução.

Um protetor solar deve oferecer bloqueio considerável dentro de todo o espectro de raios UV, uma faixa da luz que vai dos 290 a 400 nm e engloba tanto raios UVA, aqueles que penetram as camadas profundas da pele, quanto raios UVB, de atuação mais superficial. Este é um requisito muitas vezes difícil de cumprir mesmo em protetores químicos convencionais, sendo o FPS anunciado na embalagem o de proteção UVB, com poucas menções ao UVA. A legislação brasileira exige uma proteção UVA de no mínimo 1/3 da proteção UVB, mas lembramos que mesmo um FPS 50 não significa proteção total contra os raios.

Seria então possível cumprir estes requisitos de proteção com um óleo vegetal?
A resposta é não. Alguns filtros solares englobam óleos vegetais como aditivos a suas formulações, em conjunto a outros filtros, mas a utilização destes ingredientes sozinhos para proteção solar não é segura e vamos te mostrar os motivos.

(Tem dúvidas sobre o uso de óxido de zinco para formular protetores em casa? Nós também já discutimos por que isso pode não ser seguro.)

1) Óleos vegetais apresentam FPS muito baixo ou praticamente nulo

 

Com base neste estudo [1] citado pela Formula Botanica [2], vemos que, primeiramente, óleos vegetais possuem um FPS baixíssimo, que pode ser desconsiderado quando falamos de proteção solar eficaz: os valores para a absorção UV dos óleos de canola, coco, oliva e soja foram irrisórios, próximos de FPS 1.

Os resultados são corroborados por este outro estudo [3] de pesquisadores indianos, que testou somente a absorção para o UVB, e mostra um FPS de no máximo 7-7,5 para amostras de óleo de coco e oliva, e menor ainda para outros óleos. Neste artigo [4] há outra avaliação da absorção UV de alguns óleos vegetais, dessa vez sem correspondência com FPS, que também mostra resultados insuficientes: mais uma vez, o óleo de coco teve absorção praticamente nula, enquanto outros óleos como neem e ricino absorveram até 25-40% dos raios UVB, o que ainda são valores bem baixos considerando que um FPS recomendado de 15 equivale a absorção de 93% dos raios.

Tratando de óleos brasileiros, esta pesquisa [5] concluiu que emulsões com óleo de andiroba também não tem ação fotoprotetora, inclusive em testes in vivo. Este outro [6] traz análises in vitro para emulsões com 10% de diversos óleos da nossa flora nativa, como açaí, buriti, andiroba, tucumã e castanha, e também chegou a resultados baixíssimos (FPS 1), elucidando seu fraco poder em efetivamente absorver raios UV.

Isto nos mostra óleos vegetais com um fator baixo e limitado de proteção, que inclusive pode variar entre as amostras de acordo com a qualidade do ingrediente e a própria metodologia dos testes. Como garantir que o FPS do seu óleo de coco é 8 e não 0? Estas características, assim como outras na composição destas matérias-primas, vão variar de acordo com lote, origem, cultivo e colheita, método de extração/refino, tempo e forma de armazenagem.

2) Óleos vegetais não protegem em todo o espectro UV

 

Mesmo quando óleos vegetais apresentam algum tipo de proteção, ainda que baixa, ela raramente poderá ser aplicada a todo o espectro UV. Nos estudos acima, vimos que o coco não foi eficaz em nenhuma faixa do espectro, e no outro só houve o teste para UVB chegando a um valor pequeno.

O óleo de café verde é um dos mais citados como protetor solar, mas sua proteção é limitada à faixa do UVB [7]. Além disso, este estudo brasileiro [8] mostra para este óleo resultados de no máximo FPS 4,1 com grande variação entre as amostras e médias bem abaixo deste valor. No caso da espécie Coffea arabica, de onde é extraído a maioria dos óleos de café comercializados, o valor médio obtido foi 1,5, com variações entre 1,24 e 1,78.
É possível ver formulações caseiras e artesanais que alegam FPS por conter óleo de café verde, mas não há nenhuma comprovação deste efeito: se o ingrediente puro tem FPS teórico médio de 1,5, que efeito ele terá diluído em pequenas concentrações num creme ou bálsamo?

Café verde, antes da secagem. Imagem: Cristina Bruseghini/Flickr

 

3) Óleos vegetais sofrem degradação com a radiação solar

 

Óleos vegetais tem sua estabilidade prejudicada quando expostos diretamente à radiação solar, podendo sofrer degradação e liberar radicais livres, e há mais detalhes sobre este mecanismo aqui. [9] Em vez de proteger, eles estariam dessa forma contribuindo para causar danos oxidativos nas células da pele, aumentando os riscos de câncer e podendo gerar sensibilidade cutânea. Em muitos casos aqui no Brasil, eles também podem estar adulterados e já oxidados, com odor rançoso, aumentando ainda mais os problemas quando utilizados em direta exposição ao sol.

O fato de alguns óleos serem ricos em antioxidantes não significa que não sofrerão degradação, muito menos que são capazes de agir na prevenção a longo termo de problemas causados pela exposição prolongada ao sol. Óleos concentrados nestes compostos podem ajudar a minimizar danos oxidativos e impulsionar o FPS de filtros químicos e minerais, mas isto não faz deles protetores solares, já que neutralização de radicais livres (atividade antioxidante) não é a mesma coisa que absorção de raios UV.

4) Formulações com óleos vegetais não são submetidas a testes para avaliar seu FPS final

 

A determinação do FPS de um produto não é uma tarefa simples e requer constantes testes para garantir que o valor seja estável e corresponda ao desejado. Muitos dos resultados que vimos para óleos vegetais foram obtidos através da metolodogia espectrofotométrica de Mansur [10], o que significa que são um valor teórico e aproximado calculado a partir da absorbância destes ingredientes em vários comprimentos de onda do UV.
Porém, é necessário comparar os resultados in vitro com aqueles obtidos a partir de testes em humanos com diferentes tons de pele para saber se o produto realmente atua como esperado. É preciso compreender as interações físico-químicas entre os ingredientes da fórmula e destes com a radiação solar. Se são escassas pesquisas que avaliam in vitro o FPS de óleos vegetais, o que podemos dizer de testes em humanos? Provavelmente nenhuma amostra de óleo comercializada no Brasil passou por uma análise comprobatória deste tipo, tornando vazias quaisquer afirmações sobre o valor real (e não teórico) de seu FPS.

Conclusão: óleos vegetais não são seguros para uso como protetor solar.

Seu potencial protetor raramente foi medido na pele, e os valores teóricos existentes mostram FPS muito baixo que não atende a todo o espectro UV. Afirmações de FPS sem testes que as comprovem são insignificantes.

Mesmo assim, são ingredientes excelentes para hidratar, proteger e suplementar a pele, servindo como grandes aliados no cuidado diário e pós-sol. 

Óleos vegetais são capazes de formar uma película emoliente sobre a pele, que auxiliará a reter a umidade e prevenir o ressecamento ambiental causado por calor e vento excessivo. Além disto, fornecem ácidos graxos necessários para recomposição da barreira lipídica da pele e, em alguns casos, antioxidantes que minimizam os danos de radicais livres responsáveis pelo envelhecimento precoce. Por isto, abuse destes ingredientes e produtos à base de óleos em seu cuidado diário, aplicando-os em massagens suavizantes nas áreas que necessitam de hidratação, nutrição e regeneração.

No calor, escolha óleos facilmente absorvidos e indicados para todas as peles, como o coco ou a semente de uva, e combine-os a óleos ricos em antioxidantes naturais, como o buriti e sua altíssima concentração em carotenóides. Manteigas gentis como o cacau e o karitê também são ótimas para peles sensíveis e extremamente ressecadas.
Não se esqueça: prefira óleos e manteigas prensados a frio, orgânicos e de ótima procedência.

 


1 – Gause, S. Chauhan, A. UV-blocking potential of oils and juices, University of Florida, 2016, em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26610885

2 – Formula Botanica. Why you should NOT use coconut oil as a sunscreen, em: https://formulabotanica.com/not-use-coconut-oil-sunscreen/

3 – Chanchal Deep Kaur, Swarnlata Saraf. In vitro sun protection factor determination of herbal oils used in cosmetics, 2010, em: http://www.phcogres.com/article.asp?issn=0974-8490;year=2010;volume=2;issue=1;spage=22;epage=25;aulast=Kaur

4 – K. Anil Kumar and K. Viswanathan, “Study of UV Transmission through a Few Edible Oils and Chicken Oil,” Journal of Spectroscopy, vol. 2013, Article ID 540417, 5 pages, 2013, em: https://www.hindawi.com/journals/jspec/2013/540417/cta/

5 – FERRARI, Márcio; OLIVEIRA, Maria S. C.; NAKANO, Adelino K.  and  ROCHA-FILHO, Pedro A. Determinação do fator de proteção solar (FPS) in vitro e in vivo de emulsões com óleo de andiroba (Carapa guianensis). Rev. bras. farmacogn. [online]. 2007, vol.17, n.4 [cited  2017-01-10], pp.626-630. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-695X2007000400023

6 – Hudson Caetano Polonini et al. “Óleos da flora nativa da Amazônia: atividade fotoprotetora in vitro e composição principal de ácidos graxos”, Rev. Bras. Farm. 93 (1): 102-108, 2012, em: http://rbfarma.org.br/files/rbf-2012-93-1-16.pdf

7 – Jean F. Grollier, Sophie Plessis. Use of coffee bean oil as a sunfilter, L’oreal, 1988, em: https://www.google.ch/patents/US4793990

8 – Wagemaker, T. A. L. et al. Sun protection factor, content and composition of lipid fraction of green coffee beans, em: http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0926669010002712

9 – Eunok Choe e David B. Min. Mechanisms and Factors for Edible Oil Oxidation”, Comprehensive Reviews in Food Science and Food SafetyVolume 5, Issue 4, Version of Record online: 29 SEP 2006, em: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1541-4337.2006.00009.x/pdf

10 – Mansur JS, Breder MNR, Mansur MCA, Azulay RD. Determinação Do Fator De Proteção Solar Por Espectrofotometria. An Bras Dermatol Rio De Janeiro. 1986;61:121–4.


Imagem de capa: Reinhard Roscar

Entrevista com a dermatologista Julia Hunter

Nossa pele está inegavelmente relacionada à nossa saúde como um todo, sendo muitas vezes um espelho para aquilo que acontece dentro da gente. Essa visão holística de nosso corpo é, no entanto, algo que ainda é raro de se encontrar na visão de médicos e médicas, sejam dermatologistas ou de outras especialidades. A ideia de que para tratar algo em nossa pele é necessário apenas receitar dermocosméticos acaba ignorando outros problemas subjacentes àquele sintoma, fazendo por vezes o tratamento ser paliativo e nunca chegar à cura desejada.

O trecho a seguir é traduzido de uma entrevista (que pode ser acessada integralmente aqui) com a dermatologista Julia Tatum Hunter, que tem uma visão interessante a respeito do funcionamento e das relações entre nosso corpo, nossa alimentação e o meio em que vivemos.
A dra. Julia Hunter era anestesiologista de cirurgia plástica, mas por observar que estas cirurgias invasivas tinham poucos resultados a longo prazo voltou-se à dermatologia e aprofundou seus estudos em nutrição, medicina tradicional chinesa e Ayurveda, de forma que sua abordagem complexa de tratamentos dermatológicos é uma boa referência para quem vê a saúde pelo seu potencial holístico.


Julia Hunter – www.juliathuntermd.com

“Roby Mitchell: Da maneira como você fala, parece que a dermatologia conduz inevitavelmente a uma perspectiva holística.

Julia Hunter: Bom, a pele diz muito sobre o que está acontecendo internamente, e você tem que resolver primeiro o interior para poder atingir os resultados externos. Acne e praticamente todas as outras patologias comuns de pele como a psoríase, ezcema e cânceres de pele são causados por problemas internos. Problemas de pele são multifatoriais, como tudo, com predisposições genéticas, fatores nutricionais, influências hormonais, efeitos colaterais de medicação, estresse, patologias inflamatórias – todos desempenham seu papel. Saúde intestinal, ou a falta dela, também desempenha um grande papel. Eu olho para as causas internas bem como quaisquer causas externas.

RM: Fale um pouco sobre o modo como você trabalha em termos de diagnóstico.

JH: Primeiro eu converso com meus pacientes. Eu elaboro um histórico extenso e examino tudo! O meu processo de levantamento de dados abrange todos os aspectos da sua saúde, incluindo histórico familiar, alimentação, atividades físicas, hormônios, funcionamento do intestino. E presto muita atenção a esses dois últimos. Minhas consultas iniciais duram 1h30. Eu também peço exames de sangue e biópsias quando necessário. Descobri que posso obter uma série de informações úteis a partir do Biomeridian system, que foi desenvolvido a partir dos trabalhos do Reinhard Voll na década de 1950, tentando identificar e validar eletronicamente os tsubos e os meridianos da acupuntura.

“O corpo é uma orquestra. Se um instrumento estiver desafinado, toda a orquestra soará mal.”

 

RM: Você vem aplicando o conceito de oximação – estresse oxidativo mais inflamação crônica em um contexto de desregulação hormonal e superpopulação de fungos – quando isso se adequa às doenças de pele. Fale a respeito.

JH: Muitas doenças de pele estão conectadas a danos acumulados devido à oximação e a uma grande atividade fúngica. O processo de envelhecimento, neoplasias cutâneas, doenças inflamatórias e auto-imunes são todos causados ou exacerbados pela oximação. Claro que há predisposições genéticas, mas é o ambiente no qual você coloca seus genes que causa doenças. Se esse ambiente constantemente desencadeia processos inflamatórios e oxidantes, os genes expressam essas patologias.

Fungos desempenham um papel etiológico primário ou secundário na maioria das doenças que vejo. Cândida e outros fungos desencadeam inflamações constantes. Se você não cura o supercrescimento desses fungos não vai curar a patologia. Você pode atenuá-la temporariamente, mas ela reaparecerá na pele ou em outro lugar. Pacientes nunca realmente se recuperam se eles estiverem em um constante estado inflamatório e carregando consigo fungos em seu organismo.

Hormônios, especialmente os hormônios da tireoide – ou a falta deles – desempenham um grande papel em tudo isto. Se você estiver com hipotiroidismo, sua pele, seu sistema imunológico, na verdade todo o seu corpo, estará trabalhando em um ritmo lento. Você terá maior proliferação de fungos, processos inflamatórios serão intensificados e a oximação também. Tudo começará a envelhecer mais rápido. Por isso temos de prestar atenção à tireóide e outros hormônios como testosterona, DHEA, cortisol, estradiol e estriol, progesterona, hormônio de crescimento. O corpo é uma orquestra. Se um instrumento estiver desafinado, toda a orquestra soará mal.

RM: Você diria que a doença de pele é um prenúncio de doença sistêmica?

JH: Muitas delas são apenas isso. Rosácea e vermelhidão, poros abertos, acne, inclusive no peito e nas costas, foliculite, caspa, pêlos da barba encravados, molusco contagioso (NT: um vírus parente da varíola), psoríase, eczema, vitiligo, queda de cabelo, queda de pelos das sobrancelhas, unhas fracas ou com micose, os cânceres da pele, bolsas sob os olhos, alguns tipos de verrugas, manchas escuras… Em minha experiência, tudo isso tem causas internas conectadas com inflamação, estresse oxidativo, supercrescimento de fungos, desequilíbrios hormonais ou problemas metabólicos.

A pele é apenas uma janela para o que se passa no interior. Você nunca vai curar a doença de pele a menos que cure a causa interna. Se você estiver usando esteróides para se livrar desses problemas de pele – como muitos médicos estão- você não cura, apenas as suprime temporariamente. Além disso, se você olhar a lista completa de ingredientes de muitos desses remédios de uso tópico, verá que eles estão cheios de ingredientes inflamatórios! Colocar ingredientes que provocam inflamações em um processo inflamatório é como jogar gás sobre um incêndio.

RM: Qual o papel que a alimentação desempenha nos problemas de pele e no tipo de abordagem do seu tratamento?

JH: Bom, acredito que somos aquilo que comemos e, como você gosta de dizer, não podemos medicar os pacientes para tirá-los de onde chegaram com sua alimentação e estilo de vida.

Na prática, percebi que as orientações do Peter D’Adamo em sua dieta sanguínea têm grande valor e dão aos pacientes uma boa diretriz sobre como comer para a promoção da saúde e beleza. A dieta paleolítica é boa a princípio, mas muitas pessoas não conseguem segui-la.

Mas antes de poder realmente começar com as dietas alimentares, precisamos nos concentrar na recuperação do intestino, que muitas vezes é realmente disfuncional em pessoas com doenças de pele. Sabemos que há uma parte muito importante do sistema imunológico concentrada ao longo do trato intestinal. Assim, o melhoramento do funcionamento do intestino também resolve a sobrecarga do sistema imunológico. Tenho visto acne grave e todo tipo de patologias de pele melhorarem ou resolverem definitivamente apenas pela cura de inflamações no intestino! Ao limpar o intestino você resolve problemas como gases, inchaço e constipação, além de, claro, limpar a pele.

Há muitos outros aspectos relacionados – a produção de ácido clorídrico pelo estômago, produção adequada de enzimas digestivas, ter os probióticos certos trabalhando no intestino, seguir corretamente uma alimentação rica em vegetais com ação anti-inflamatória, reduzir o consumo de carboidratos refinados e gorduras que causem inflamações.

“A verdade é que muitos dos meus pacientes que se expõem ao sol têm baixa vitamina D3 porque estão cheios de fungos, que estão consumindo tudo.”

 

RM: A vitamina D, ou “vitahormônio” D, como eu gosto de chamar, uma vez que ela age como um hormônio, está recebendo muita atenção ultimamente. Qual a sua opinião sobre a vitamina D e a exposição ao sol? Você defende que as pessoas evitem tomar sol e utilizem protetores solares?

JH: Use bloqueador solar, não protetor solar. Protetores solares não protegem contra inflamação ou danos de DNA induzidos por UV, eles simplesmente retardam esses problemas. Já o bloqueador solar desvia raios UV completamente, o que de fato protege, mas você precisa reaplicar a cada 2 horas para obter a máxima proteção. Recomendo também proteger os olhos e o couro cabeludo. Você não quer ter catarata ou uma cabeça cheia de câncer de pele/melanoma. Eu gosto de bloqueadores solares que têm zinco, já que muitas pessoas podem ter problemas com titânio.
(…) A verdade é que muitos dos meus pacientes que se expõem ao sol têm baixa vitamina D3 porque estão cheios de fungos, que estão consumindo tudo. (…)

RM: Quais são alguns dos ingredientes contidos em cosméticos que as pessoas devem tentar evitar e por quê?

JH: Eu evitaria qualquer coisa que esteja cheia de conservantes. Por que razão esses conservantes estão lá, em primeiro lugar? Porque a maioria dos produtos de pele são feitos anos antes de serem vendidos. Eles são essencialmente produtos “mortos” e só não rancidificam por causa dos conservantes, assim como os produtos alimentícios com conservantes químicos, que só não apodrecem na prateleira dos supermercados por causa desses conservantes.

Evite os parabenos, por serem inflamatórios e causarem envelhecimento precoce da pele. Trietanolamina é outro vilão, porque mimetiza o estrogênio em homens e mulheres. O propilenoglicol, que é muito comum, também é inflamatório e promove o envelhecimento da pele. Ureia, encontrada em muitos cosméticos, libera formaldeído e outras toxinas. Óleo mineral obstrui os poros, assim como a vaselina, então evite-os. Tente ficar longe do lauril sulfato de sódio, o que é difícil porque está presente em muitas coisas. Ele danifica as membranas celulares, destrói proteínas, desencadeia inflamações e promove o envelhecimento. Há uma longa lista de ingredientes nocivos, mas este é um bom começo.

RM: Sua linha inclui um produto exclusivo com vitamina C em pó. O que a vitamina C faz pela pele e por qual razão você desenvolveu essa formulação?

JH: A reticulação do colágeno ocorre graças à vitamina C. Quando ela está presente na pele, estimula a produção de colágeno. O resultado é uma pele mais firme e esticada, com um aspecto mais jovial pela nova produção de colágeno.

A vitamina C é anti-inflamatória, então ela diminui a rosácea, vermelhidão, poros abertos, envelhecimento, os danos causados pelo sol e protege contra substâncias químicas inflamatórias que circulam dentro da corrente sanguínea. Ele também ajuda a desmontar os melanócitos que geram as manchas escuras na pele. Diminui melasmas e manchas escuras ao redor dos olhos, além de ter efeito anti-microbiano, ajudando a matar bactérias, vírus e fungos. A vitamina C tópica é elementar para os cuidados com a pele.

O problema é que quando a vitamina C está em estado líquido, oxida rapidamente, o que significa que você tem pouco proveito do tempo de aplicação dela sobre a pele. Minha formulação é um pó; você o prepara a cada uso e obtém 100% de de ácido L-ascórbico. Você obtém também um monte de outros antioxidantes, vitaminas, minerais, L-glutationa e outras coisas boas.

RM: Você acha que um clínico geral bem informado poderia tratar essas patologias cutâneas mais comuns?

JH: Sim, certamente. Mas peço que não siga o caminho mais fácil e prescreva a hidrocortisona em busca de soluções rápidas que acabam danificando a pele a longo prazo. Quando receber alguém com erupções cutâneas crônicas, acne, doenças inflamatórias de pele, lesões que não cicatrizam ou envelhecimento precoce, analise cuidadosamente seus hormônios, sua alimentação, seu metabolismo, seu funcionamento gastrointestinal. Descubra o que está acontecendo sistemicamente. Se você resolver os problemas sistêmicos, os problemas de pele geralmente resolvem também.

Se você tiver feito o seu melhor e a patologia persistir, ou se você sentir que realmente não tem o tempo necessário para fazer um bom tratamento cutâneo, então encaminhe o paciente a um dermatologista. Os clínicos gerais também devem ter muito cuidado com verrugas de aparência suspeita. Muita atenção a qualquer sintoma de pele que pareça potencialmente carcinogênico. Esteja ciente de que existem mais melanomas sem pigmentação hoje em dia, então sempre levante essa suspeita.

RM: Quais são algumas de suas estratégias básicas no dia-a-dia para uma pele saudável?

JH: Certifique-se de que está obtendo vitamina D3 suficiente, e a partir de complementos alimentares, e não do sol. Beber muita água livre de produtos químicos. Consumir óleos de qualidade e boa procedência que contenham ômega 3 e ômega 6 – eu gosto da linhaça, das nozes e das avelãs. Não use sabonetes, shampoos e produtos de cuidados pessoais que contenham ingredientes tóxicos. Lembre-se que praticamente tudo o que você coloca na sua pele é absorvido por ela e entra em sua circulação.*

Quanto mais antioxidantes, vitaminas e minerais na sua alimentação, melhor! A melatonina, iodo/iodeto de potássio e magnésio são especialmente importantes. Evite o excesso de açúcar. Aprenda se livrar do estresse, desenvolver o seu senso de humor, compartilhar amor e amizade, abrir a sua mente, ter compaixão e respeito pelos outros! Tudo isso conta!

*Em relação à absorção de substâncias pela pele, a questão é mais complexa e não pode ser resumida a “praticamente tudo atinge a corrente sanguínea”. Para saber mais sobre esta interação, recomendamos este texto da farmacêutica Eliziane Pozzagnolo lá no Cosmetologia Orgânica


Imagem de capa: Dominik Martin

5 passos para ler rótulos de cosméticos naturais

Começando geralmente pela alimentação, o consumo consciente não se limita só a ela. Das roupas aos eletrônicos, tudo tem impactos em sua cadeia produtiva, de distribuição e descarte que necessitam urgentemente de atenção.

Sabendo que os consumidores estão mais alertas (e conscientes), não é difícil encontrar hoje em dia uma série de medidas tomadas pelas empresas para conter o distanciamento entre aquilo que elas produzem e o que o consumidor deseja. Mais barato que uma mudança estrutural séria, o greenwashing é muitas vezes a saída mais fácil e econômica para não se queimar com seus consumidores. Ou seja, maquiar-se de ambientalmente correto sem na verdade ser.

Além de pesquisar sobre a responsabilidade socioambiental das empresas, um passo essencial é ler rótulos de todos os produtos.
Aqui vai uma lista simples e rapidinha que vai te ajudar com os rótulos de cosméticos!

1. Identifique compostos químicos comprovadamente nocivos

Os principais ingredientes a serem evitados são: petrolatos (petrolatum, mineral oil), derivados de polietilenoglicol (PEG-), parabenos (qualquer terminado em –paraben), ftalatos (terminado em –phthalate), formol e liberadores de formaldeídos (DMDM hydantoin, imidazolidinyl urea, diazolidinyl urea), triclosan, palmitato de retinol (retinyl palmitate), siloxanos (terminados em –siloxane e –methicone) , etanolaminas (diethanolamine, triethanolamine), BHA e BHT, dentre outros.
A lista é muito maior e não vale a pena colocar tudo aqui porque a Nyle Ferrari, do Lookaholic, tem um e-book esclarecedor que pode (e deve) ser baixado de graça aqui: Beleza Tóxica.

A dica é manter uma listinha no celular ou impressa com esses ingredientes para poder checar na hora. Tem algum químico nocivo listado no ebook? Evite, fim de papo.
Outra opção é checar os ingredientes e formulações no banco de dados da EWG’s Skin Deep pra ver se possuem riscos associados e qual é a gravidade.

2. Reconheça os termos oficiais para ingredientes vegetais ou minerais

Existe uma nomenclatura internacional de ingredientes cosméticos (International Nomenclature of Cosmetic Ingredients, ou INCI), que estabelece que os ingredientes vegetais devem ser listados nos rótulos com seus respectivos nomes científicos, o que evita desentendimentos com nomes populares, que variam de acordo com país ou regiões.
Para tornar mais claro isso ao consumidor, é possível que o nome popular venha entre parênteses ao lado da nomenclatura científica, e de preferência em português. Não é obrigatório, claro, mas é questão de bom senso e transparência, além de ajudar muito a identificar ingredientes de origem animal. Por exemplo:

Óleos e manteigas vegetais
Manteiga de cacau: Theobroma cacao seed butter
[Nome científico da planta +  parte de onde se extrai (em inglês) + butter (manteiga) ou oil (óleo)]

Óleos essenciais
Óleo essencial de lavanda: Lavandula angustifolia flower oil
[Nome científico da planta + parte da planta de onde se extrai (às vezes não está presente) + oil]

Extratos vegetais
Extrato de alecrim: Rosmarinus officinalis extract
[Nome científico da planta + parte da planta de onde se extrai (às vezes não está presente) + extract]. O veículo do extrato (água, óleo vegetal, glicol) também deve estar listado na formulação. Por exemplo, pode haver extratos vegetais glicólicos obtidos com derivados de petróleo (polietilenoglicol) em formulações de proposta natural. Na dúvida, contate sempre a empresa fabricante.

3. Avalie a ordem dos ingredientes

Os ingredientes nos rótulos devem ser listados da maior para a menor concentração. Por isso avalie a proporção de ingredientes naturais e terapêuticos. O cosmético pode alegar que tem uma série de compostos naturais muito bacanas, você até não se importa muito que tenha algo sintético na fórmula, já que podem ser sintéticos seguros. Mas aí lá na formulação os ingredientes que são a principal chamada no rótulo aparecem por último na listagem. Por vezes atrás até da fragrância e do conservante, enquanto os primeiros ingredientes são água e emulsionante.

Há, claro, o caso de óleos essenciais e extratos, ingredientes poderosos que são usados em concentrações mais baixas.  Mas fique alerta: em muitos casos, óleos e manteigas vegetais que servem como propaganda estão muito pouco presentes no produto. É preciso ter cuidado com produtos ditos naturais que contém apenas 0,5% de algum óleo refinado. Se isso acontecer, se pergunte: aquele composto, em quantidades mínimas, realmente vai ter algum efeito terapêutico? Ou será que ele consta ali por puro greenwashing?

4. Tome cuidado com os perfumes sintéticos

O cheiro dos cosméticos são muitas vezes sequestrantes dos afetos de quem os experimenta, e ao contrário dos óleos essenciais não possuem o complexo sistema de interação terapêutica de aromas naturais sobre a pele ou em nosso emocional.
Um aroma cativante e exclusivo é tão importante que mesmo algumas marcas naturais trabalham com fórmulas de aromas sintéticos que são segredos industriais – ou seja, somente a empresa sabe a composição, ninguém mais. Aparece na formulação sob o simples termo “perfume”, “parfum” ou “fragrância”, quando na verdade esconde dezenas de componentes que muitas vezes são tóxicos, sensibilizantes ou derivados de petróleo.

A EWG fez uma pesquisa em 2010 para saber o que existia por trás dos perfumes comercializados nos Estados Unidos e descobriu que são formulados em média por 14 ingredientes químicos que não estavam listados nos ingredientes. Entre eles havia químicos associados com disrupção hormonal e reações alérgicas, e muitas substâncias sequer haviam sido testadas para uso seguro em produtos de cuidado pessoal – das mais de 5000 substâncias diferentes utilizadas pela indústria, apenas cerca de 1300 são conhecidas e mesmo assim são somente testadas em animais ou de forma muito superficial em seres humanos.
Então já sabe: apareceu “parfum” como ingrediente, tome cuidado. Em pouquíssimos casos, geralmente associados a empresas que já usam óleos essenciais e possuem proposta natural, “parfum” pode ser um termo que designa um blend de aromas naturais proprietário, então procure saber caso esteja em dúvida.


5. Saiba diferenciar natural de orgânico

Nem tudo que é de origem natural é necessariamente orgânico. O termo orgânico nesse caso é utilizado para tratar de ingredientes vegetais cultivados sem fertilizantes químicos ou agrotóxicos. Um cosmético orgânico deve necessariamente apresentar concentração específica de matéria-prima vegetal de cultivo orgânico. Porém, muitas formulações são chamadas de orgânicas sem cumprir esse requisito.

Um produto que se diz natural não deve ter (ou ter em quantidades limitadas) ingredientes sintéticos em suas formulações, prezando sempre por matéria-prima pura em formato de óleos e extratos naturais ou compostos derivados de matérias-primas naturais. O correto é que não contenha nenhum ingrediente derivado de petróleo nem qualquer substância tóxica ou nociva.

Nesse caso é essencial pesquisar os termos desconhecidos das fórmulas para se certificar de que são obtidos de uma fonte natural e, no caso de veganos, de fonte vegetal. Se você está numa loja sem internet no celular, tire uma foto e pesquise em casa antes de comprar. Segurar o impulso da compra de forma consciente pode garantir a melhor escolha para o nosso corpo.

Tem mais alguma dica não listada acima? Compartilhe com a gente!


Imagem de capa: Isabell Winter

Como usar manteiga de cacau na cosmética natural

Há muito tempo um dos ingredientes mais populares e amplamente utilizado na culinária e na cosmética natural, a manteiga de cacau é uma das mais lembradas no tratamento da pele e dos cabelos.
Quando orgânica e prensada a frio, preserva seu aroma característico e remete a chocolates finos de altíssima qualidade (que são, por sinal, veganos 🙂 ).

O cacau

O cacaueiro (Theobroma cacao) é uma árvore de pequeno porte nativa das regiões tropicais da América do Sul e Central, que aceita sombreamento por árvores maiores e foi utilizada por muitas civilizações ameríndias para fins alimentares e ritualísticos. O gênero de seu nome científico vem do grego, em que theos significa “deus” e broma significa “comida”, literalmente “comida dos deuses”. Embora todo mundo consuma chocolate e associe a alcunha de “comida dos deuses” ao chocolate industrializado cheio de leite e açúcar, poucos conhecem de fato o fruto do cacau. Ele é oval e sua coloração varia do amarelado ao roxo, apresentando em seu interior uma polpa branca que envolve as sementes. A polpa é deliciosa e era utilizada por povos tradicionais em sua alimentação e seus rituais, da mesma forma que os grãos, e é de se lamentar que hoje em dia a polpa praticamente não seja valorizada enquanto alimento riquíssimo por aqui.

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Fruto do cacau. Imagem: CPT/divulgação
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Corte do fruto em detalhe. Imagem: USDA/Divulgação

Os grãos, sementes da planta, que já serviram como moeda para povos pré-colombianos, se tornaram o principal motivo pelo qual monoculturas de cacau foram organizadas em países tropicais desde o período colonial, para suprir a inicialmente europeia e atualmente mundial obsessão por chocolate. Como o cacau é uma planta sensível, comumente estas monoculturas podem ser perdidas para doenças e infestações, a menos que se utilizem agrotóxicos, o que compromete absolutamente a qualidade do produto e o meio ambiente.
Para garantir o cacau orgânico de qualidade, são necessárias iniciativas distintas e agroecológicas, incorporando a planta à floresta nativa, como é o caso dos cultivos agroflorestais, sintrópicos e altamente biodiversos desenvolvidos pelo suíço Ernst Götsch, o precursor dos sistemas agroflorestais no Brasil.
No Brasil já existem iniciativas de cultivo de cacau agroecológicas para produção de chocolates de altíssima qualidade, como é o caso da AMMA 🙂

A manteiga

A manteiga de cacau é obtida através da prensagem das sementes tostadas (ou cruas, secas ao sol, valorizadas na cozinha crudívora), que apresentam um conteúdo gorduroso ao redor de 54%. Sua coloração é amarelada, com consistência sólida (ponto de fusão aproximado de 34°C). Apresenta aroma e sabor característicos do cacau, e por este motivo é comum que seja desodorizada para a utilização cosmética, embora nossa preferência seja pela manteiga orgânica de grau alimentício com seu fantástico aroma original.

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As duas consistências: in natura na temperatura ambiente e derretida, mantendo sua coloração amarelada.

É uma manteiga vegetal altamente estável por conta de sua composição: além de uma grande proporção de gorduras saturadas, possui vitamina E e polifenóis, compostos antioxidantes naturais que previnem a formação de radicais livres. Possui textura aveludada e derrete facilmente quando em contato com a pele, fazendo desta uma manteiga suave e adequada para diversos tipos de cremes e bálsamos. Tem grande poder emoliente e o fato de não ser prontamente absorvida também a faz adequada para massagens.
Além de tudo, traz fitoesteróis, substâncias vegetais de composição similar ao colesterol com capacidades anti-inflamatórias e que recuperam a barreira natural da pele. [1] [2]

Composição média de ácidos graxos da manteiga de cacau

Ácidos graxos saturados: 61% (~28% palmítico e 33% esteárico)
Ácidos graxos insaturados: 38% (~35% oleico e 3% linoleico)
Triglicerídeo principal: palmítico-esteárico-oleico [3]

Lembrando que a composição média é uma referência mas a composição real da sua manteiga dependerá da matéria-prima e como foi processada. Se possível exija laudo de análise do lote obtido.

Principais características e aplicações

  • Alta capacidade emoliente de forma geral, contribuindo para a diminuição da perda de água transdérmica e a nutrição da pele, deixando-a macia e suave;
  • Especialmente indicada para peles sensíveis e secas, pode ser utilizada pura. É considerada levemente comedogênica (pode entupir poros), então deve ser evitada no rosto para peles oleosas, acneicas ou com poros largos;
  • Devido a sua consistência, pode auxiliar na composição de cremes e bálsamos sólidos e pastosos, ajudando a proteger outros óleos e manteigas da rancificação;
  • Suaviza marcas e cicatrizes;
  • Em sabonetes naturais cold process, traz potencial limpante com cremosidade e dureza.

A manteiga de cacau se torna, assim,  especialmente apropriada para áreas extremamente ressecadas, como pés, joelhos, cotovelos e calosidades, e é muito eficiente mesmo em quantidades pequenas. Peles sensíveis também se beneficiam largamente, pois é apropriada até para suavizar assaduras e alergias de pele em bebês. De forma geral, ela será suavizante e hidratante, contribuindo para níveis adequados de água na pele e um aspecto saudável com menos marcas e danos.
Sua capacidade emoliente faz com que forme uma camada que protege a superfície da pele e pode auxiliar em cicatrizes e feridas em recuperação, tanto por seus ácidos graxos quanto compostos insaponificáveis. Além disto, pode ser utilizada pura como um potente hidratante labial completamente natural e seguro de ser ingerido.

Extremamente versátil, a manteiga de cacau ainda pode ser utilizada em receitas para incrementar chocolates, cremes, bolos e tortas cruas e adicionar um delicioso tom legítimo de cacau, sem aromas artificiais.

Antes de obter uma manteiga de cacau, veja se é desodorizada ou não.
Como dissemos, é muito comum que o uso cosmético seja da manteiga desodorizada, pois naturalmente ela possui um aroma evidenciado que compete com as fragrâncias. Ainda, há de se tomar cuidado com manteigas às quais são adicionadas fragrância artificial de cacau (como as manteigas de cacau para lábios vendidas em farmácias, onde são adicionados óleos minerais e aroma sintético).
Nós, no caso, preferimos a manteiga prensada a frio orgânica e virgem, incorporando seu delicioso aroma aos nossos produtos.

Caso queira derreter a manteiga, ela deve ser esquentada em banho-maria lentamente e sem que sua temperatura ultrapasse os 50°C. Quando é esquentada, a manteiga de cacau tem sua estrutura cristalina alterada para uma forma menos estável, sendo possível que não retorne ao estado sólido imediatamente após o resfriamento. Com o tempo os cristais passam a naturalmente se reverter para a forma estável dando novamente sua dureza característica. A questão é que existem seis formas diferentes de cristais da manteiga, que vão dar origem a estruturas e propriedades distintas. [4]

Sua vida útil é longa, de 2 a 3 anos, otimizada por uma estocagem adequada ao abrigo de luz solar e calor.


[1] Navin M. Geria. “The role of phytosterols in cosmeceutical products”, 2009, em: https://www.thefreelibrary.com/The+role+of+phytosterols+in+cosmeceutical+products.-a0214793388

[2] Norhayati Hussain e Roiaini Mohamad . “Effect of Different Solvents on Phytosterols and Antioxidant Activity of Cocoa Beans”. International Journal of Food Engineering Vol. 1, No. 1, June 2015, em: http://www.ijfe.org/uploadfile/2015/0618/20150618055521287.pdf

[3] M. Lipp e E. Anklam. “Review of cocoa butter and alternative fats for use in chocolate-Part A. Compositional data”. Food Chemistry, Vol. 62, No. 1, pp. 73-97, 1998, em: http://nfscfaculty.tamu.edu/talcott/courses/FSTC605/Class%20Presentation%20Papers-2015/Review-Cocoa%20Butter.pdf

[4] Alejandro G. Marangoni e Sara E. McGauley. “Relationship between Crystallization Behavior and Structure in Cocoa Butter2003″, em:  http://pubs.acs.org/doi/abs/10.1021/cg025580l

Imagem de capa: Acervo pessoal, 2016