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Agrotóxicos: de Onde Vieram, Para Onde Caminham?

Por: Equipe Trópica em 16/06/2021

Muito se fala sobre agrotóxicos, tanto para defendê-los quando para mostrar seus problemas. Aqui vamos explicar como eles surgiram e o quais os impactos a curto e longo prazo de sua aplicação massiva.

Agrotóxico: um nome que nasceu no Brasil

Enquanto no mundo são chamados de herbicidas e pesticidas, no Brasil o termo agrotóxico surgiu graças ao agrônomo Adilson Paschoal, que definiu o termo assim em uma entrevista:

“Agrotóxico tem origem do grego: agros (campo) + tokicon (veneno). O vocábulo tem sentido geral, incluindo todos os produtos de natureza tóxica usados na agricultura (mais propriamente nos sistemas agrícolas ou agroecossistemas), para o manejo de pragas, patógenos e ervas invasoras.”

Acredito que essa seja o melhor termo para designar esse compostos e usaremos ele nesse texto A história do surgimento dos agrotóxicos é resumidamente assim:

Agrotóxicos e a guerra:
o DDT e os inseticidas

No longínquo ano de 1874 um químico austríaco chamado Othmar Zeidler sintetizou uma molécula que ficou guardada por muitos anos até ser redescoberta em 1939 por outro químico, dessa vez o suíço Paul Müller.

Paul Müller estava procurando uma substância inseticida eficaz para duas coisas: a Suíça passava por um período de fome por causa de ataques de insetos aos seus cultivos alimentares, enquanto a Rússia sofria com uma grave epidemia de tifo, transmitida por insetos.

Com a descoberta das propriedades do DDT, o mesmo foi amplamente utilizado durante a Segunda Guerra para proteger os exércitos Aliados da transmissão de doenças causadas por insetos, como a tifo e a malária. Com o fim da guerra, as plantas químicas tão bem desenvolvidas passaram a ser lucrativas vendendo esses mesmos produtos para o uso residencial e agricultural. Nascia aí a popularização dos inseticidas.

Agrotóxicos e a guerra:
os herbicidas e o Agente Laranja

Nem só com tanques, pólvora e bombas se faz uma guerra moderna, e foi também na Segunda Guerra que uma arma química foi desenvolvida e depois aperfeiçoada: os herbicidas, utilizados para destruir cultivos alimentares e florestas dos países “inimigos” (que jeito ruim de classificar um país e seus habitantes, não?).

Herbicidas foram amplamente pesquisados, desenvolvidos e aplicados para destruir plantações e florestas desde então, culminando no caso mais famoso até hoje: o uso do Agente Laranja pelos Estados Unidos na Guerra do Vietnã.

Feito a partir de dois herbicidas hormonais, o Agente Laranja era um desfolhante entre outros diversos herbicidas pulverizados sobre o Vietnã pelo exército americano. Extremamente tóxicos, esses herbicidas destruiram plantações, extensas áreas de florestas e deixaram até hoje um terrível legado de doenças gravíssimas e contaminações persistentes tanto pela lentidão de sua degradação quanto pela bioacumulação.

Ah, guerra química parece algo que ficou no passado? Em pleno ano de 2015 fazendeiros pulverizaram agrotóxicos de avião sobre uma comunidade indígena em Dourados, no Mato Grosso do Sul. Viu como é essencial a gente entender também de onde eles surgiram?

Revolução Verde:
a política internacional

e o combate à fome mundial

Se os inseticidas e herbicidas foram desenvolvidos para guerras com embates materiais, guerras mais sutis como a Guerra Fria também tiveram enorme colaboração para sua popularização.

Com o desenvolvimento dessas tecnologias com alto potencial lucrativo e pouco uso bélico sem uma guerra em curso, a Revolução Verde surgiu como um plano que unia o útil ao agradável: usar essas indústrias para gerar lucro e ao mesmo tempo erradicar a fome do mundo. Isso porque a pauperização era uma porta aberta para o surgimento de iniciativas socialistas durante a Guerra Fria. O responsável pela USAID (United States Agency for International Development) a definiu assim em um discurso em 1968:

“Esses e outros desenvolvimentos no campo da agricultura contêm os ingredientes de uma nova revolução. Não é uma Revolução Vermelha violenta como a dos soviéticos, nem é uma Revolução Branca como a do Shah do Irã. Eu chamo isso de Revolução Verde.”

As implicações da Revolução Verde
nos países onde ela “revolucionou” a agricultura

Na prática a Revolução Verde partiu dos então chamados “países desenvolvidos” e unia várias frentes, com investimento em desenvolvimento de tecnologia agrícola visando cultivos com variedades altamente rentáveis dentro de práticas monoculturais. Por cultivar apenas uma variedade, essas plantações estão mais sujeitas a infestações generalizadas de insetos e outras doenças, além da necessidade do uso de herbicidas para conter as ervas que competem por espaço e nutrientes e uso intensivo de fertilizantes químicos devido ao empobrecimento do solo.

Ainda, a ampla gama de biocidas com mecanismos de ação diversos precisa ser atualizada de tempos em tempos, uma vez que variedades resistentes aos venenos inevitavelmente surgirão. Sobre isso é interessante ler o manual da própria Embrapa sobre herbicidas.

Além disso a Revolução Verde ainda teve sérios impactos na dependência tecnológica dos países mais pobres para produção de alimentos, endividamento dos pequenos agricultores, além da concentração de terras nas mãos do agronegócio.

Pouco comentada é também a contribuição da Revolução Verde para o aumento da produção de lixo no mundo: ela é responsável por uma porcentagem significativa de todo o resíduo gerado no mundo, grande parte devido ao descarte de equipamentos mecânicos e embalagens de agrotóxicos e fertilizantes, além da emissão também significativa de gases do efeito estufa. Mas aqui vamos nos focar apenas nos impactos socioambientais dos venenos aplicados.

Ah, importante lembrar: a fome mundial não acabou, apesar das graves consequências do uso intensivo de agrotóxicos e fertilizantes químicos pelo mundo. Isso porque a fome tem mais a ver com a má distribuição de riqueza do que somente com a dificuldade de cultivar alimentos de qualidade para todas as pessoas.

Mas qual o problema dos agróxicos, afinal?

Agrotóxicos são compostos biologicamente ativos, e por sua finalidade precisam interagir de forma a alterar o funcionamento de organismos vivos por mecanismos diversos, geralmente afetando o sistema nervoso central de insetos. Essas alterações, como vimos, têm ação intencionalmente maléfica (no sentido de fazer mal), e seus efeitos e sua toxicidade são também sentidos nos organismos de outros seres vivos, como os seres humanos.

Apesar de a preocupação com nosso consumo de alimentos contaminados e opção por consumir orgânicos ser válida e extremamente importante, os agrotóxicos causam problemas ainda maiores nos locais onde são produzidos, aplicados e descartados. Aqui vamos nos concentrar na aplicação.

Apesar do uso disseminado, as famílias agricultoras raramente recebem qualquer tipo de formação técnica para manejo menos perigoso de venenos em suas lavouras. Elas dificilmente têm locais seguros para armazenamento de galões de agrotóxicos, instruções adequadas sobre sua diluição e acesso a equipamentos de proteção adequados para aplicá-los, frequentemente guardando-os dentro de casa e expondo pele, mucosas e vias respiratórias durante a aplicação, além de higienizar as roupas contaminadas junto das roupas de uso doméstico.

Dentre todas as pessoas expostas, são as agricultoras que estão mais sujeitas a cargas mais altas e constantes de veneno.

Para além da aplicação direta há ainda a pulverização realizada por aviões, que despejam centenas de litros de venenos sobre as monoculturas. Essa prática é ainda mais perigosa, com o vento carregando grandes quantidades de veneno para locais imprevisíveis. Há casos que atingiram escolas e crianças em horário de aula.

O contato direto e constante com agrotóxicos causa inúmeros problemas graves de saúde para os produtores e habitantes rurais, que vão desde irritações cutâneas e alergias até má formação fetal, alterações hepáticas, câncer, desordens neurológicas, disrupção endócrina, coma e até mesmo a morte. A velocidade com que se desenvolve e vende agrotóxicos não acompanha pesquisas que estudem suas graves consequências.

Estar longe da aplicação não significa
estar a salvo de consumi-los

Agrotóxicos podem se espalhar com o vento na hora da pulverização ou com a volatização de compostos que ficaram sobre as folhas das plantas. Eles ainda se depositam no solo e com as chuvas são carregados para aquíferos, lençóis freáticos, lagos, rios e mares, atingindo extensões imensas e chegando até na torneira da nossa cozinha.

Pois é, mesmo em áreas distantes das plantações onde são despejados estamos bebendo veneno e sem nem saber direito quais.

São responsáveis em grande parte pela morte massiva de insetos diversos, como as abelhas nativas, e em efeito cascata impactam negativamente desde a polinização até toda a cadeia alimentar que depende desses insetos para se alimentar, como pássaros e roedores.

Poluentes orgânicos persistentes
e a bioacumulação

Muitos dos compostos contidos nos agrotóxicos são chamados de poluentes persistentes por não se degradarem facilmente no ambiente nem nos organismos em que se depositam. Seu ciclo de existência é longo e têm grande capacidade de deslocamento por diversos mecanismos, como sua evaporação e transporte através das chuvas, alcançando regiões remotas onde nunca foram aplicados.


Eles podem bioacumular no organismo dos seres que o consomem ao longo de sua vida e biomagnificar ao longo da cadeia alimentar – um exemplo simples é do pássaro que come minhocas contaminadas e o gato que come pássaros que comeram várias minhocas cada. Ou seja, o gato comeu agrotóxicos bioacumulados e biomagnificados ao longo da cadeia de predação.

E agora, o que fazer?

Quando falamos em mudanças no modo de produção e consumo de alimentos estamos falando de uma série de condições interdependentes que precisam mudar, desde nossos hábitos alimentares até uma melhor distribuição de terras para as famílias agricultoras que cultivam variedades que de fato nos alimentam (o que não acontece com o milho e a soja, por exemplo, que são em sua maioria destinados a produzir ração animal).

No próximo post da série traremos um tema especial que até a ONU já declarou ser urgente e com muito mais potencial que a Revolução Verde: a agroecologia!

Imagem: De Olho nos Ruralistas.

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