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Sabonetes Naturais

Por que trocar o lauril por sabonetes naturais

Por: Trópica Botânica em 31/05/2017

Há alguns anos, quando começamos a fazer sabonetes naturais para uso pessoal, uma das coisas que mais nos incomodava e nos estimulou a seguir esse caminho era a massiva presença de ingredientes sintéticos nos produtos convencionais que estávamos evitando. Nossas peles são relativamente sensíveis e o uso de sabonetes convencionais nos causava algumas reações adversas, enquanto o uso de shampoos enfraquecia meus fios, que são cacheados.

O que é considerado um sabonete convencional?

Aqui nesse artigo vamos considerar convencionais aqueles produtos que encontramos facilmente em mercados e farmácias, que são sabonetes feitos a partir da mistura de uma base saponificada com surfactantes, seja no processo industrial ou artesanal. Há alguns sabões feitos apenas de surfactantes, chamados syndet, a partir das palavras synthetic detergent, ou seja, detergente sintético. Não é o tipo mais comum e disponível no mercado nacional, então não vamos aprofundar neles.

A maior parte dos sabonetes disponíveis no mercado são feitos a partir do sabão oriundo da saponificação de sebo animal (geralmente subproduto da pecuária) e óleos vegetais misturado a algum surfactante mais forte, como o lauril sulfato de sódio [LSS]. Geralmente ocorre ainda adição de conservantes, corantes e fragrâncias sintéticas para dar características únicas a cada sabonete. Esse processo combina a ação dos surfactantes* de origens diferentes, resultando em uma barra que tem maior poder de limpeza, mas que também pode ser mais agressiva à pele pela presença do LSS.

Mas afinal, que tipo de substância é o LSS?

Este ingrediente é encontrado sob vários nomes e está presente desde o lava-louças até a pasta de dente, além de ser um dos principais agentes limpantes escolhidos em sabonetes e shampoos. Há anos existe bastante movimentação contra sua presença, levando à busca e implementação de alternativas tanto sintéticas quanto naturais. Ainda assim podemos encontrá-lo em grande parte dos produtos de higiene corporal, mesmo em alguns sabonetes ditos naturais.

O LSS é definido como um surfactante ou tensoativo. Simplificando, surfactantes são substâncias que apresentam um grupo hidrofóbico (que repele água) e um grupo hidrofílico (que atrai água) em sua molécula. Essa estrutura química dá aos surfactantes, portanto, a capacidade de atuar na interface entre ar/água ou entre sólidos/água, influenciando as propriedades nessa superfície de contato, alterando a forma como a água interage com os grupos hidrofóbicos pela diminuição de sua tensão superficial. [1]

Esquema de uma molécula de surfactante
Estrutura esquemática de uma molécula de surfactante

Tanto os surfactantes sintéticos quanto os presentes em sabonetes naturais agem da mesma forma quanto à ação de limpeza, diferindo apenas a sua origem. No caso do contato sujeira/água, o que ocorre é que, ao se conectar à gordura e à água ao mesmo tempo, os surfactantes arrastam as moléculas de gordura em uma solução aquosa e promovem a limpeza de nossa pele. Surfactantes são capazes de fazer isso de maneira organizada através de estruturas denominadas micelas.

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Que problemas o LSS pode trazer?

O LSS é extremamente eficaz em arrastar a gordura e a sujeira. Isso faz com que ele remova a oleosidade natural da nossa pele, deixando-a desprotegida e ressecada. Diferente de um sabonete natural, a ação desse surfactante pode dessa forma aumentar a perda de água transdérmica (TEWL) e pode levar a rachaduras e inflamações na epiderme. Não à toa, o LSS é rotineiramente utilizado em testes clínicos para induzir irritações. [3]

Embora seja considerado seguro segundo padrões da indústria cosmética e possa ter seus danos minimizados, o potencial de irritação do LSS é bem conhecido e documentado, especialmente quando utilizado em concentração mais altas, a partir de 2%. [4] A maioria desses resultados infelizmente teve por base pesquisas em animais. Porém, testes em animais foram proibidos em 2013 na União Europeia e atualmente já existem resultados recentes baseados em testes in vivo em humanos que mostram o potencial de irritação dessa substância quando usada repetidamente no mesmo local, principalmente em concentrações a partir de 5%. [5] Alguns fatores vão influenciar a suscetibilidade à irritação, como local de aplicação, concentração, tempo e frequência de uso, idade, tipo de pele, dentre outros. De forma geral, os maiores riscos aparecem com altas concentrações, aplicação constante, peles e áreas sensíveis como mucosas, e em crianças e idosos.

Um estudo do Instituto de Química da Unicamp mostrou que a imersão do cabelo em LSS a 5% é capaz de promover uma perda proteica nos fios duas vezes maior que a imersão em água. [6]

Outra dissertação de mestrado no mesmo instituto também avaliou a degradação causada por diferentes tensoativos, mostrando que tensoativos aniônicos como o LSS e o LESS (lauril éter sulfato) são responsáveis por provocarem as maiores perdas de material proteico capilar quando comparados com outros tipos de surfactantes e água – ou seja, pesquisas e indícios de sua ação não faltam. [7]

Qual é então a diferença dos sabonetes naturais?

Nem todos os sabonetes convencionais levam LSS em sua composição – hoje em dia já existem alternativas no mercado com outros surfactantes menos agressivos à pele. Ainda assim a sua fabricação difere imensamente de sabonetes naturais, que podem ser feitos ou a partir de uma base glicerinada natural, pelo método cold process (processo de fabricação de sabões a frio) ou hot process (processo de fabricação de sabões na presença de calor).

A obtenção do sabonete através do método hot ou cold process se dá através da saponificação de óleos e gorduras vegetais puros com hidróxido de sódio, o que do ponto de vista da cadeia de produção é menos impactante do que a produção em massa de LSS e outros surfactantes industriais.  Até porque na grande maioria dos casos os sabonetes naturais são produzidos em pequena escala. Em formulações mais gentis, esses óleos e gorduras podem estar em “excesso” (superfat) e portanto promover um efeito suavizante e emoliente da pele. Idealmente não existem aditivos sintéticos ou tóxicos nos sabonetes naturais feitos do zero, mantendo uma composição mais pura e fazendo uso de outros ingredientes naturais, como argilas e óleos essenciais, para conferir coloração e aroma.

O ponto é que sabonetes naturais podem ser muito mais gentis com a pele e o meio ambiente, em toda sua cadeia de produção e consumo.

Nos sabonetes naturais da Trópica levamos este ponto extremamente a sério. Nunca adicionamos fragrâncias artificiais ou corantes sintéticos, indo de encontro a padrões criteriosos de formulação natural. Isto gera barras condicionantes e balanceadas, sem nada prejudicial. Assim, cada uma é pensada para promover propriedades específicas em diferentes tipos de pele.

O que fazer no caso de peles sensíveis?

Sabonetes naturais de formulação branda e bem elaborada podem se adaptar a todos os tipos de pele. Dessa forma, vale a pena conversar com a empresa e testar o sabonete mais suave que tiverem disponível. Em alguns casos peles muito sensíveis podem apresentar reações mesmo com o mais gentil dos sabões, devido a suas características tensoativas de pH alcalino. Então, se sua pele tem histórico de sensibilidade e não se adaptou bem a um sabonete natural, procure orientação profissional. Provavelmente serão recomendados produtos de limpeza facial elaborados com surfactantes gentis e pH próximo ao do manto da pele, ou mesmo uma limpeza somente com água 🙂


Bibliografia:

[1] Farn, Richard J. [org.] “Chemistry and Technology of Surfactants”. Oxford: Blackwell Publishing, 2006, p. 1-43.

[2] Foxon-Hill, Amanda. “Sodium Laureth Sulfate – What’s the fuss about?”. Blog Realize Beauty, 24/02/2009.

[3] Trotter S. Neonatal skincare: why change is vital. RCM Midwives. 2006;9:134-8

[4] Cosmetic Ingredient Review (CIR). “Final report on the safety assessment of sodium lauryl sulfate and ammonium lauryl sulfate”. Int J Toxicol. 1983;2(7):127–81. Disponível em: http://journals.sagepub.com/doi/abs/10.3109/10915818309142005

[5] Horita et al. “Effects of different base agents on prediction of skin irritation by sodium lauryl sulfate using patch testing and repeated application test”.

[6] Wagner, Rita de Cássia Comis. “Degradação do cabelo decorrente do tratamento contínuo com lauril sulfato de sódio e silicone”. Dissertação (mestrado). Campinas: Universidade Estadual de Campinas/Instituto de Química, 2003.

[7] Pires-Oliveira, Rafael. “Degradação de cabelo causada por tensoativos: quantificação por meio da análise das soluções de lavagem por espectrofotometria UV-VIS”. Dissertação (mestrado). Campinas: Universidade Estadual de Campinas/Instituto de Química, 2013.


* Considerando sua atuação química, um sabonete natural feito pela saponificação de óleos e gorduras vegetais também é um surfactante. Essa é uma definição técnica que não pode ser contestada. Como outros tensoativos, o sabão também engloba as moléculas de gordura e sujeira e as arrasta através de micelas. Provavelmente o sabão é um dos surfactantes mais antigos conhecidos pela humanidade, juntamente às saponinas de algumas plantas.

Imagens: Acervo Trópica Botânica

4 comentários em “Por que trocar o lauril por sabonetes naturais

  1. Excelente conteúdo…apesar dos termos técnicos, foi fácil e entender e foi esclarecedor o bastante…tinha muita dúvida sobre o lauril … Muito agradecida!🙏🏻

    1. Oi, Rebeca!
      Que bom que o texto te ajudou a expandir seu conhecimento 🙂 Ficamos felizes que tenha gostado.
      Um abraço,

  2. Olá ! O que podemos usar.no lugar do lauril? Obrigada 💞

    1. Oi, Gislaine!
      Não posso responder a esta pergunta pois não sei para qual finalidade você quer aplicar o lauril. Porém, no caso de limpeza da pele, indicamos sabonetes naturais fabricados por saponificação de óleos e manteigas vegetais.
      Nossa equipe não realiza o trabalho de ajuste ou desenvolvimento de fórmulas, mas caso possamos te ajudar de outra forma, fico à disposição.
      Abraços,

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